Tempo ouro de poesia

A COLUNA DE IVÂNIA CRISTINA LIMA MOURA

Para os aflitos, poesia: pílulas, cachetes, aos montes. Poesia sempre. Poesia para os fiéis, benevolentes e compassivos: pilhas, caminhões, contêineres. Também para os charlatães, corruptos, larápios: poesia injetável, urgente. Curem-se. De todo jeito, poesia: salvemo-nos da intolerância, do preconceito, da inveja. Quilos e quilos: poesia ativa, da mata, remédio dos pajés. Poesia que transcende, que fortalece, que água.

Poesia sempre: palavra que liberta, que transforma. Por favor, uma taça de poesia. Por favor, uma xícara, um copo, uma colher de chá de poesia. Aquela que vem da voz do povo, aquela que vem das bandeiras de luta, aquela que vem do suor do trabalho, aquela que sobrevive. Aquela que sobrevive nos charcos, becos, mangues, favelas, morros, lajedos, vales. Aquela que é lançada em gritos de socorro. Aquela que está em silêncio.

Para os desportistas e treinadores, árbitros e bandeirinhas, gandulas e fogueteiros: poesia. Poesia em competir, torcer, jogar, disputar. Poetizar no nocaute, no gol ou na cesta. Poetizar-se. Poetizar em duplas, trios, times: contagem de tempo. Sim. Tempo ouro de poesia. Concentração nas palavras, nos acordes, nas rimas, nos versos livres, na sonoridade. Poesia no gogó.

Alma que se adianta, tremores, sopapos, sustos. Reverência à mãe de todos: poesia da natureza. Poesia todo santo dia. Esplendor aos cinco sentidos. Esplendor ao sexto sentido. De bandeja: recebemos, respiramos, sentimos. Agradecemos. O sol nasce em sua magnitude, põe-se em sua humildade. Poesia em raios, em nuances, nas leis da perfeição. Fotossíntese: poesia. Reprodução, nascimento, crescimento, envelhecimento, morte: poesia. Eis que um passarinho nos traz a mensagem.

De mãos dadas, no meio-fio, em lótus, na fila do pão. Poesia para quem percebe, palavra para quem quer, pontos e vírgulas. Rocambole de sentimentos, talharim de desejos, sarapatel de sonhos, caldo de lembranças. Saúde em prosa, em luz, em sensações. Alerta. Poesia. Corta, assa, esquenta, requenta, torra, cozinha, doura, gratina: palavras mutantes. Palavras poéticas, no vento. Que toquem as trombetas, que apareçam os anjos, que vivam os santos, que acendam as fogueiras juninas, que penetrem nas catacumbas, que caiam com a chuva, que removam as montanhas. Poesia descalça. De chinelo, salto, coturno, bota, sandália, alpercata, sapatilha, tênis, mocassim, tamanco. Dos pontos cardeais, de aglomerados galácticos, de estrelas. De estrelas. De estrelas. Com licença, poesia. Poetize-se. Publique-se.

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