Sorveteria Trianon

A COLUNA DE FRANCELINO SOARES

E aí foi como se juntasse “a fome com a vontade de comer”: numa de suas viagens a Salvador e a Feira de Santana, na Bahia, em busca de comprar toras de madeira para a sua madeireira, Seu Chatô teve a curiosidade aguçada pelos vendedores urbanos de picolés, aqueles das carrocinhas…

Dito e feito: esse seria o novo caminho para novos negócios. De imediato, adquiriu doze carrocinhas, e não faltaram vendedores avulsos de picolés pelas ruas da cidade. O estoque não dava para quem queria, mesmo contando com a fabricação caseira, agora supervisionada por Dona Naíde. É aí que surge a ideia de montar uma sorveteria.

Numa de suas viagens a São Paulo, sempre a negócio, é que “arregaçou as mangas” e adquiriu toda a maquinaria para a futura sorveteria, inclusive, enamorando-se do nome de uma famosa sorveteria que embelezava as ruas paulistanas: Sorveteria Trianon. O negócio das carrocinhas de picolés ele resolveu vender para Valmor, o nosso segundo fabricante de picolé, cuja tradição, ainda hoje, é mantida, inclusive com sorveteria.

Aí, Cajazeiras ganha a nossa Sorveteria Trianon, o point de encontro da sociedade cajazeirense. Coincidência apenas: ali onde começara o namoro de Chatô com Naíde, surge o novo ponto de encontro da juventude namoradeira citadina. Pela imponência do novo ambiente, foi sendo esquecida a antiga Sorveteria Oriente, de propriedade de Dona Nenzinha, localizada na Rua Tenente Sabino (atual Calçadão), próxima do Hotel homônimo, na época um pouco distante do passeio dos namorados nas noites dos finais de semana.

Localizada no centro da Praça (Avenida) Presidente João Pessoa, local onde funcionara, por muito tempo, a tradicional Farmácia de Marechal (sobre a qual falaremos oportunamente), Seu Chatô destinou o pavimento superior a servir de pousada/hospedagem para os caixeiros-viajantes que vinham à cidade.

No pavimento térreo é que instalou a sorveteria, que também mantinha uma adega, com os melhores vinhos e bebidas da época e que servia de ponto de encontro diário e, sobretudo, para eventos familiares pré-contratados, como uma espécie das hoje conhecidas “Casas de Festas”, que abundam por ai, por aqui e por além… Aí, sempre à noite, é que se encontrava o mundo social cajazeirense, a exemplo, de Dr. Otacílio, Dr. Zé Guimarães, João Claudino, Zé Cavalcanti e muitos outros.

Um fato curioso: na época, era comum os consumidores da Sorveteria sorverem boas doses de whisky ao som de inapagável radiola. Estava no auge do sucesso o famoso Trio Irakitan, com os seus famosos boleros. Não é que, entre os contumazes frequentadores da adega, estavam sempre João Claudino e Zé Cavalcanti, no que eram acompanhados pelo  próprio Chatô. Nascia ali o estreitamente de uma amizade que os irmanou a ponto de, quase diariamente, juntar-se o trio, mesmo que fosse na casa deste último, para as longas e aprazíveis estórias. Pois bem! Daí nasceu, na cidade, a alcunha de “novo Trio Irakitan”.

A saudosa Sorveteria Trianon permaneceu de 1955 até 1962, quando a família, agora já considerável, via os filhos chegarem à idade de buscar novos rumos à procura de cursos superiores. A filha Iclea, já estudando na Capital, é que se tornou a motivação para vinda a João Pessoa de toda a família.

Formando-se em Letras Neolatinas, Iclea não via campo de atividade adequado em Cajazeiras, e ainda porque o Secretário de Educação à época, Valdo Lima do Vale (Governo Pedro Gondim), casado com uma sua prima, necessitava dos trabalhos dela como sua assessora de confiança, sendo então esta alçada à direção da Escola José Américo, no bairro de Cruz das Armas.

Isso foi o pretexto para a família se mudar, à procura de novos voos para os filhos que, a essa altura, já eram sete: Francisca Íris (in memoriam), que veio a desposar o conterrâneo José Renato Lima; Maria Iclea, com curso superior; Isabel (Isa); Ítalo Chateaubriand, hoje aposentado pela antiga SAELPA; Ivo, que cursou até o 3º ano de Engenharia/UFPB, mas que se aposentou pelo INSS; Irlânio, formado em Direito e Ciências, que, depois de Agente Fiscal, se aposentou como Auditor Fiscal, no estado de Pernambuco; Francisco Ilson, atualmente, funcionário aposentado da UFPB.

Já na Capital do Estado, a partir de 1963, o ímpeto e o tino comerciais de Seu Chatô deram asas à imaginação dele: colocou uma frota de Kombi para fazer as linhas João Pessoa/Cabedelo, Ponto de Cem Reis/Praia de Tambaú. Não satisfeito, no quintal de sua residência, na Rua João Machado, construiu um aviário, quase uma granja, estabelecendo a venda de frangos na cidade.

Com a saída dos filhos, que constituíam família, resolveu mudar-se para a Praia de Tambaú – Av. Nego, alugando a antiga residência da Rua João Machado, fundos da Igreja de Lourdes, que passou a servir como sede do MOBRAL. Já na praia, a família abriu uma doceria, inicialmente chefiada por Iris e as filhas Adriana e Luciana. Esta funcionou ativamente de 1992 a 1995, sempre em mãos da família.

A título de Curiosidade: o saudoso Mons. Abdon Pereira era tio de Seu Chatô, o que fazia deles grandes amigos.

Seu Chatô faleceu em 3 de março de 1998, deixando-nos um legado de decência e trabalho. Dona Naíde faleceu, aos 96 anos, em 2010.

Para nós, e, creio, para os cajazeirenses, permanece a lembrança de uma família tradicional.

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