CAJAZEIRENSES & CAJAZEIRADOS

SAORA, O PÃOZÃO DE ARROBA

SEVERINO CABRAL FILHO

Severino Cabral dos Santos, seu Saora, nasceu a 19 de outubro de 1918, na cidade de Teixeira, Sertão paraibano; filho de Joaquim Cabral dos Santos e Maria Madalena da Conceição.

Seu pai foi um modesto comerciante ambulante, que comprava pequenos animais (caprinos, suínos, ovinos) e queijos na zona rural de Teixeira e os revendia na sede do município. Essa família vivia sem atropelos uma vida previsível, mas materialmente confortável na medida do possível considerando a vida cotidiana própria às pequenas cidades paraibanas nas décadas iniciais do século XX.

Tudo isso acabou em algum dia do ano de 1924, quando, vitimado por um ataque cardíaco, faleceu Joaquim Cabral dos Santos. Assim, viúva, dona Madalena, até então uma dona de casa como era comum às mulheres casadas do seu tempo, juntou os seus filhos Inácio Cabral dos Santos, Matias Cabral dos Santos, Severino Cabral dos Santos e Vicente Cabral dos Santos e seguiu para Patos, onde fixou residência e passou a trabalhar como lavadeira e passadeira de roupas de algumas famílias abastadas da cidade Morada do Sol.

Essa circunstância adversa levou aqueles garotos a buscarem alguma ocupação para reforçar o orçamento familiar. Assim, por volta dos oito anos de idade, Saora começou a trabalhar como ‘pãozeiro’, isto é, entregador de pão e biscoitos pela sua vizinhança na cidade de Patos. Logo, passou a ajudante de padeiro e rapidamente foi se assenhorando dos segredos do ofício.

Seu Saora se casa no ano de 1936 com a senhora Severina Porfíria dos Santos. Com ela teve cinco filhos (Maria Porfíria da Conceição, Irene Cabral dos Santos, João Cabral de Santana, Ivani Cabral e José de Arimatéia Cabral).

Já na condição de padeiro, trabalhou em algumas cidades no entorno de Patos, conforme convites e mediante melhores salários. No ano de 1945, padeiro feito, aceitou convite para trabalhar em Campina Grande, na famosa Padaria Urca. Voltou de Campina Grande para Patos seis meses depois por razões de saúde.

No dia 15 de março de 1947 desembarca em Cajazeiras a convite de Zeca da Padaria, com quem passaria a trabalhar. Nessa circunstância, tem apenas suas duas primeiras filhas. Em curto espaço de tempo começou a trabalhar como autônomo, instalando sua própria “gangorra” de padaria, de caráter artesanal, à rua Dr. Coelho.

Em 1953 dona Severina, sua esposa, veio a falecer. Em novembro desse mesmo ano ele tornou-se membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus. Em março de 1954 contraiu núpcias com Antonia Feitoza dos Santos, com quem viria a ter seis filhos (Bartolomeu Feitoza Cabral, Ozelita Feitoza Cabral, Elizabeth Feitoza Cabral, Severino Cabral Filho, Izaque Feitoza Cabral e Jacob Feitoza Cabral).

Durante todos esses anos, a partir de 1947, Saora não mais saiu de Cajazeiras, apesar dos muitos convites que recebeu; adotou a Terra do Padre Rolim como sua cidade e nela trabalhou muito, fez pães e criou bordões que marcaram a memória coletiva dos cajazeirenses. As pessoas acima dos 40 anos seguramente lembrarão dele passando pelas ruas de Cajazeiras, vendendo seus pães e chamando a freguesia com algumas dessas frases: “Olha o pão quente, preparado para a merenda, contendo coco, queijo e doce de goiaba”; “olha o jacaré de coco”; “olha a bolinha de ouro. É ouro até na cor, gente! Tá se acabando”.

Em 1980, após essa longa e louvável jornada de trabalho que marcou a sua vida, seu Saora aposentou-se. Os seus filhos – José de Arimatéia Cabral e Bartolomeu Feitoza Cabral – seguiram a tradição da produção dos pães de Saora de acordo com os seus ensinamentos. E continuam.

No dia 23 de fevereiro de 2005, já bastante combalido por problemas cardíacos, Saora, tendo sofrido um acidente vascular abdominal, veio a falecer no Hospital Regional de Cajazeiras, apesar do esforço hercúleo dos médicos que chegaram a operá-lo, numa tentativa heroica para mantê-lo vivo.

Neste dia 19 de outubro se completam 100 anos do seu nascimento. Ele é muito digno de todas as homenagens que lhe forem feitas.

SEVERINO CABRAL FILHO É PROFESSOR DA UFCG E FILHO DE SAORA

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