Romualdo Braga Rolim: a baraúna que tomba

A COLUNA DE SAULO PÉRICLES BROCOS PIRES FERREIRA

COISAS DE CAJAZEIRAS
ROMUALDO BRAGA ROLIM / FOTO: DIA´RIO DO SERTÃO

Perdemos uma das figuras mais importantes da nossa história, de cem anos para cá, e posso inclusive afirmar que o Estado da Paraíba como um todo também vai sentir de forma semelhante tal perda: com a avançada idade de 101 anos (que não demonstrava ter), Romualdo B. Rolim, em sua casa situada na Praça Nossa Senhora de Fátima, sentiu-se mal; e apesar de ter sido removido para a UTI de Sousa (se tivesse ido ao nosso Hospital Regional teria seu fim abreviado), mesmo assim não resistiu, vindo a falecer.

Então, como eu fui um dos que desde o tempo de meus pais, tive muitos e frequentes contatos com o grande que faleceu, venho tecer as considerações que Romualdo fez e faz por merecer.

De origem de uma das mais tradicionais famílias de nossa cidade, ele e seus irmãos tiveram, assim como tantos outros, suas origens na lide da agropecuária, que seu pai, Luiz Rolim, proprietário de terras na região que hoje conhecemos como Santa Helena, ele e seus irmãos, Clóvis, Acácio, Sinval, Antônio e Dedé, literalmente “pegaram no pesado”, desde a infância, assim como sucedia com todos os filhos de pequenos proprietários rurais, ou seja limpou muito mato e tangeu muito boi.

Um pouco mais tarde, nos podemos encontrar com auxiliar do maior agropecuarista daquelas bandas à época, o conhecido João Alexandre. Tem uma passagem interessante de um “viajante” que teria se insinuado para Maria Silva (filha de João Alexandre, recentemente falecida), que tendo levado um “corretivo” por sua ousadia, compôs esses versos, que vou tentar me lembrar:

“Lá vem Acácio, Rimualdo e João Alexandre, veio até um nego grande, só fartaram me matar…”. Naquela época, dos anos quarenta para lá, ser pessoa de confiança do “cara” do pedaço, era uma forma de galgar alguns degraus na hierarquia sertaneja. Mas Romualdo foi além, e como foi; depois, já adentrada a década de 40, ele já era um dos maiores corretores de algodão de nossa região, pessoa de confiança de outro grande da época, Dr. Severino Cordeiro. Então veio a construção civil. Com seu sócio Otacílio Campos, eles integravam uma construtora, que inclusive faziam contratos com o Governo Federal da época de JK, tanto que seu irmão mais novo, Dedé Rolim, durante certo tempo veio a residir no Rio de janeiro, a então Capital da República. Eram os tempos em que Carlos Pires de Sá era Diretor presidente do DNER.

Não acompanhei de tão perto sua trajetória, deixo para outros, mas vou me recordar de fatos que eu acho relevantes: Quando em João Pessoa, ele veio a receber possivelmente como pagamento de alguma conta, uma fazenda quase imprestável lá pelo Brejo, que “só tinha pedra”, então, como era o começo da verticalização em grande escala na nossa capital, Romualdo, com sua percepção do homem de visão que ele era, transformou essa fazenda pedregosa e improdutiva na fonte da empresa que supriria de brita para construção nossa capital; se tornando assim, o principal fornecedor de brita para João Pessoa, auferindo os louros (e os lucros) dessa visão de transformar uma deficiência numa vantagem.

Isso, sem perder de vista sua terra natal, e que continuou a ser o mesmo agropecuarista, e dono de imóveis, que eram no conjunto, autossustentáveis aqui no Sertão, não foi o filho ingrato que despreza suas origens, vinha constantemente a sua terra, e manteve seus negócios, as fazendas Pé Branco e Queimadas, além da casa na Pça. Nossa Senhora de Fátima e outros imóveis que estão aí para provar.

Na última vez que tive a honra de ser convidado para jantar com Romualdo, nas vésperas de seu centenário, ele comentava que essa propriedade de onde foram retiradas as pedras para fazer brita, tinha deixado muitos buracos, com resultado das contínuas escavações, Romualdo, já centenário, tinha um projeto de aproveitar esses buracos para fazer um criatório de peixes, queria ingressar na piscicultura com 100 anos, prova incontestável da visão desse nosso conterrâneo; o que sempre faltou em nosso meio, composto muitas vezes por gente sem visão, que se limita a copiar o que está dando certo nessa terra de modismos.

Fica meu reconhecimento ao grande que se foi.

P.S. – Na última crônica, aludi ao furto do nosso incipiente museu. Mas ante à visão aterradora do incêndio do Museu nacional do Rio de janeiro, faço uma reparação e me retrato da seguinte forma: Graças a Deus que somente furtaram nosso acervo, pois podemos ainda ter alguma esperança de serem encontrados ou devolvidos; já os do Rio de janeiro, só cinzas e  a tristeza pela perda irreparável. 

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