Quando falamos nos passivos e ativos da Previdência, a cifra é monstruosa e vai para a casa das centenas de bilhões. Os ativos que a Previdência tem a receber de algumas empresas se aproxima dos 450 bilhões (quase o total do que é pago aos seus segurados em 1 ano). Entre os maiores devedores estão montadoras de automóveis, prefeituras, empresas aéreas e construtoras falidas, além de  usinas de açúcar e clubes de futebol. Se essas dívidas fossem  pagas de uma só vez , mais o que  já é arrecadado, a Previdência teria seu problema de caixa resolvido por quase 2 anos. A partir do terceiro ano o déficit – da forma que é calculado – voltaria para os 150 bi porque o problema é estrutural, orgânico (como um câncer). Dívida é dívida e é devida, mas não é o maior problema da Previdência. O grande problema está exatamente no déficit. Dez anos atrás era de 60 bilhões; Hoje, 150 bilhões. Daqui 3 anos será de 250 bilhões que precisa ser saldada pela arrecadação que está em queda.

Todo esse imbróglio cria um ambiente fértil para retóricas demagógicas dos dois lados do campo ideológico. Seria importante que, em nome da transparência e do respeito aos segurados, as partes envolvidas, governo e oposição falassem a verdade; que fossem  honestas quanto à abordagem e a metodologia contábil. Um lado sugere um rombo estratosférico na casa dos 150 bilhões de reais; o outro, uma conta pouco pragmática e simples, que afirma não haver déficit na Previdência.  O próprio PT, quando estava no governo,  reconheceu que há, sim, déficit na Previdência e defendia a reforma.  Um déficit , pouco maior que a metade do que é apurado tradicionalmente pelos partidos de direita, mas que há. A diferença, está nos cálculos onde se considera, ou não, o que é passivo da Previdência (aposentadorias rurais, por exemplo) e o que é, ou não, arrecadação da Previdência (COFINS, PIS, CSLL, etc). Com o debate sobre a reforma da Previdência tomando todos os fóruns, aparecem oportunistas por  todo lado. Se formos pura e simplesmente fazer a conta da forma que está circulando nas redes sociais, por exemplo, vamos constatar que não há déficit. Mas a contabilidade da Previdência vai muito além: a Previdência além de pagar seus segurados, ela paga indenizações por morte;  por acidente de trabalho; afastamentos por licenças-saúde, etc; paga aos trabalhadores rurais que não contribuíram diretamente com a Previdência; paga muito acima do teto constitucional a milhares aos inativos dos três poderes que acumulavam cargos de confiança alguns anos antes de se aposentarem. Por outro lado, a Previdência deixa de arrecadar com a política governamental de renúncias e isenções fiscais; deixa de arrecadar toda vez que o governo lança mão da DRU (Desvinculação de Receitas da União) que permite que o governo utilize recursos de uma área para tapar buraco em outra. É Importante também que os principais atores envolvidos nesse debate, ao se reportarem às dívidas que muitas empresas e entidades tem com a Previdência, lembrem-se de que os maiores devedores são as Prefeituras e muitas estatais falidas. Ou seja, tudo caixa do governo. O que não pode existir é a manipulação de números ao sabor das conveniências politicas de um lado e de outro. Governo nenhum tem o direito de imputar ao povo uma dívida que não é deste; a oposição, por sua vez, também não pode ser demagógica, sob pena de contradizer-se ao ser confrontada com a realidade.

Em nada ajudam os argumentos oportunos e demagógicos de um  lado, e a falta de transparência do outro.  Enquanto isso, a elite dirigente (oposição, sindicatos e governo), excessivamente política e pouco pragmática, vai penhorando a seguridade social dos futuros trabalhadores e servidores, mantendo e não combatendo os privilégios do presente. O setor público precisa ser melhor gerido e isso inclui a Previdência que deve ser sustentável. Entenda-se por isso, administrar  os seus recursos com austeridade,  sem ingerência partidária ou ideológica. Este é o momento da oposição responsável e não do oportunismo político; o momento da verdade complexa e não da demagogia fácil.  A reforma precisa de ajustes, mas ser contra a reforma, seja atendendo interesses de uma cultura corporativista, ou conveniências políticas inconsequentes, é atentar contra a realidade e a razão.

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