Preconceito racial

COLUNA DE ARMANDO GOMES DA SILVA

EM PÉ: OLIVEIRA XAVIER, ZUCA, GUILHERME, DORIVAL, ARMANDO GOMES DA SILVA, EXPEDITO LUIZ FURTADO, XISTO, JAIME FERNANDES OLIVEIRA, FISCAL DA CARTEIRA AGRÍCOLA, FRANCISCO OLÍVIO, JOSÉ BOTELHO BARBOSA E ANTÔNIO SEIXAS. SENTADOS: MARIO BIZARRIA COÊLHO, ERALDO COSTA, MESQUITA, ARRUDA MATOS, NATANIAS VON SÓSTENES, DOMÍCIO HOLANDA E EXPEDITO MEIRA.
ARMANDO GOMES DA SILVA

No Brasil, ouve-se com frequência a afirmação de que não existe preconceito racial. De fato, não existe oficialmente como no apartheid sul-Africano e nos Estados Unidos, mas no dia a dia de nossa convivência com outras pessoas constata-se que tal expressão não passa de um chavão.

Não digo isto com base em estudos, porém em experiência pessoal e como exemplo cito um caso concreto que, apesar de acontecido há setenta anos, ainda ocorre em nossos dias, segundo comentários da mídia por ocasião das comemorações do Dia da Consciência Negra.

No segundo semestre de 1946, o Banco do Brasil realizou concurso público de âmbito nacional e o da Paraíba foi cancelado por irregularidades. As vagas existentes, no estado, foram preenchidas com o excedente de outros.

Assim, este escriba, Expedito Luís Furtado, Jaime Oliveira e José Botelho Barbosa, aprovados no concurso do Piauí, fomos nomeados para assumir o cargo de escriturário em Cajazeiras, Paraíba. Um dos interessados telegrafou ao Senador pelo Piauí, Joaquim Pires Ferreira, pedindo o cancelamento da nossa nomeação, pois não sabíamos nada sobre a cidade. A agência do Banco em Teresina cobrava, insistentemente, o nosso comparecimento para recebermos a ajuda de custo a fim de cobrir as despesas da viagem. Em vez disso, resolvemos aguardar a resposta do Senador, porque o nosso desejo era servirmos onde estávamos.

Nesse ínterim, passamos a nos reunir todos os dias a noite para deliberarmos sobre o assunto. Decorridos quinze dias sem notícias por parte do Senador, resolvemos partir. O destino pregou-nos uma peça, pois no dia que viajamos a agência de Teresina recebeu a comunicação da Direção Geral cancelando a nossa nomeação. Tarde demais.

A nossa chegada em Cajazeiras foi às 10 horas da manhã de um sábado. A cidade estava movimentada por causa da feira semanal, como ainda ocorre nos dias atuais. Orientados pelo Cirilo, proprietário do ônibus que nos transportara, hospedamos-nos no Hotel Oriente, o melhor da cidade, distante do local de trabalho apenas dois quarteirões.

O nosso primeiro desencanto ocorreu no próprio hotel ao nos conduzirem ao quarto onde deveríamos permanecer. Em virtude da existência de apenas três redes pedimos de imediato que trouxesse mais uma rede, pois nós éramos
quatro. A camareira Lica informou-nos, então que o chauffeur estaria alojado lá embaixo e com ares de espanto disse: “e o Banco do Brasil admite gente de cor?” Para nós a recepção não poderia ter sido mais decepcionante, mas pensamos na ocasião tratar-se de um conceito estritamente pessoal.

A noite, depois do jantar, o funcionário da agência local, Mario Cota, hóspede do mesmo hotel, levou-nos para dar uma volta pela cidade. Conhecemos, entre outros logradouros, a Avenida João Pessoa, onde se fazia o footing aos sábados, domingo e feriados, o Baldo do Açude, o Bar do Ernani, o Mercado Central, a Casa Pernambucana e o Clube 8 de Maio.

As pessoas ainda não sabiam quem éramos, apenas nos observavam com certa curiosidade, porém da semana seguinte em diante a vida do Expedito tomou-se um inferno. Não podia sair do hotel sem que um grupo de garotos o acompanhasse gritando: “bola sete”, “miolo de lápis”, “noite ilustrada”, além de outras injurias claramente preconceituosas.

Naquele, tempo, vendiam-se latas de bombom com aproximadamente uns três a cinco quilos e o Expedito passou a comprar muitas delas, para que todas as vezes que saísse do hotel encher os bolsos e distribuir as balas entre os garotos, como forma de evitar a humilhação.

Certo dia, o colega Mário Coelho Bizarria comunicou-nos haver dado entrada ao pedido de nossa associação ao Clube 8 de Maio do qual já frequentávamos como convidados. Seu presidente era o Juiz de Direito da cidade, Dr. Antônio do Couto Cartaxo, eleito com o objetivo de moralizá-lo. Depois de uma longa demora o clube indeferiu a nossa associação, porém forneceu-nos um convite permanente, isto é, podíamos gratuitamente frequentar o clube como se associado fossemos. A questão racial ficou muito clara quando nos associaram compulsoriamente aós a volta do Expedito para o Piauí.

Em agosto de 1947, na festa de Nossa Senhora da Piedade, padroeira da cidade, durante o novenário, barracas de comidas e bebidas foram montadas e no último dia do festejo houve o leilão, como de costume. Circulava na ocasião um panfleto humorístico Zangão, só para zoar as pessoas. Em um deles foi estampado um retângulo em preto com as seguintes palavras escritas em baixo: “Expedito do Banco do Brasil na janela do Hotel Oriente”.

Mais ou menos um ano após a nossa chegada, o pouco amigável Sr. Joaquim Souto foi substituído na gerência pelo Sr. Mesquitinha, filho do Sr. Mesquita, gerente da agência de Fortaleza. O Expedito aproveitou a ocasião e expôs ao novo administrador as injúrias que vinha recebendo e ele em um gesto arrojado, o transferiu para Teresina sem autorização da Direção Geral. Dias depois chegou a agência o Inspetor Arruda Matos que ao constatar haver o novo gerente praticado alguns atos em desacordo com as normas da casa, e o haver advertido o Sr. Mesquitinha abandonou o cargo e voltou para a Agência Centro no Rio de Janeiro. Ainda bem que apesar de sua gestão ter sido muito reduzida, pelo menos, serviu para libertar o Expedito de tamanho constrangimento.

ARMANDO GOMES DA SILVA É EX-FUNCIONÁRIO DO BANCO DO BRASIL EM CAJAZEIRAS. RESIDE EM BRASÍLIA (DF)

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