[PEPÉ PIRES FERREIRA] Wilson Moreno e os dois lados da malandragem


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Logo quando eu voltei, formado de Recife, a primeira eleição para Prefeito de Cajazeiras, a primeira eleição contava como candidato pelo PMDB (o de Mariz) meu parente e amigo Frassales, e as reuniões dessa heróica candidatura eram na casa de Dr. Sabino, quase vizinho de minha casa, e eu era uma presença constante, e conheci ali vários nomes das então oposição, como Otacílo Silveira (então Deputado Federal), Humberto Lucena e outros.

Quem dirigia o único carro de comando dessa campanha, era um sujeito jovem que travei uma relação de amizade assim que conheci, ele se chamava Wilson Moreno. Sabia que a campanha estava perdida, mas que para o futuro os hoje perdedores certamente chegariam ao poder.

Pouco depois, quando me convocaram para a tesouraria do Atlético Profissional, soube que Wilson era irmão do nosso melhor jogador, Wilton Moreno, e de vez em quando a gente se encontrava e tomava todas. Wilson era a essência do malandro bem sucedido, a boa parte da malandragem. Por exemplo, quando O Atlético ia jogar em Patos, a gente fretava o ônibus do time e outro ônibus que Raimundo tinha, um bem velho, e eu sempre escolhia como organizador Wilson, que cobrando as passagens dos torcedores, podia pagar os ingressos doa menos aquinhoados, e o Atlético quando jogava em Patos sempre podia contar com uma boa torcida, enquanto fiquei no cargo de tesoureiro, esse esquema funcionou e bem.

Depois, na eleição de 1986, o PMDB, na chegou ao poder com a eleição de Burity, e Wilson foi contemplado com um cargo comissionado: Carcereiro Chefe da Cadeia Pública de Cajazeiras. Pronto: a lealdade cultivada era colhida, mas havia um problema: Quem eram seus “hospedes”? Quase todos velhos companheiros da Zona Sul da cidade, e Wilson assim os considerava, mas todo preso tem um único objetivo: Sair da cadeia, Wilson começou a confundir: Literalmente: Amizade com liberdade, e num episódio engraçadíssimo, que não há espaço para contar aqui, foi exonerado a bem do serviço Publico. Então voltou e veio viver juntamente com seu amor de infância, a Neide de Maria de Ciço, e na casa dela, situada na Asa Sul.

Wilson era muito inteligente e safo, fazia as coisas meio fora da moldura legal e elas ma maioria das vezes funcionava, além de ter uma conversa agrabilíssima, com adjetivos e conceitos alem de personalíssimos, irônicos e exatos, uma vez me convidou para comer um dezoito, e eu sem saber perguntei o que era. Mas Pepé, você parece que não joga no bicho? dezoito é porco, e era por aí.

Depois de uns tempos que Wilson estava morando na asa, que é como Brasília, quem não é corrupto ou corruptor, é cúmplice, na nossa Asa, quem não é traficante nem usuário, é cúmplice (isso se trata de uma generalização, mas faz certo sentido), eu soube que Wilson estava envolvido com o tráfico. Fui lhe visitar e disse: seu lugar não era ali, ai ele saiu com, a conversa de que estava sem emprego, era por uns tempos, estava dando uma força para a família da mulher, etc. Mas como eu sabia que o sujeito ser muito safo, e tinha muitos contatos, fiz meu papel, avisei e fiquei esperando.

Algum tempo depois (uns dois anos) a polícia deu uma geral e o malandro foi apesar de suas qualidades para uma temporada forçada na zona rural de Segurança Máxima do Zé Dias. Soube que ele assumiu a posse das drogas do resto da família e sofreu uma pena severa.

Tinha notícias esparsas de Wilson, e sempre que algum amigo tivesse a infelicidade de cair no Zé Dias, eu mandava recomendações e pedia para Wilson dar uma força e o cara sofrer menos.

No começo desse ano, ao passar no fim da Av. Carlos Pires, revejo meu velho amigo. Depois do abraço a gente ficou batendo aquele papo de quem não se revê há tempos, e depois ele arrematou a prosa, e disse: Pepé, a conversa tá boa mas eu tenho que ir para a faculdade, eu respondi: Que maravilha Wilson, que progresso extraordinário. Parabéns! Ao que ele respondeu: “Minha faculdade é no albergue”, estava cumprindo o regime semi-aberto. Era a forma do Wilson gozador, ele fazia gozação com ele mesmo, coisa bem de Wilson.

Agora, vem o triste: Cadeia é para quem é acostumado, ou aquele povo que vai preso constantemente, um sujeito que viveu a vida, 40 anos ou mais fora, deve ser um lugar sinistro e deprimente, Wilson, não sei se já era cardiopata, mas certamente sua doença se agravou ao cumprir essa pena. Então eu o via e voltava as mesmas conversas no Calçadão da Tte. Sabino, e Irlânio Cavalcanti, amigo comum, bateu uma foto de nós dois sentados num banco na esquina, e postou nas redes sociais.

Na realidade era o registro de nossa despedida, um dia depois, Wilson teve várias paradas cardíacas e veio a falecer.

Fica a lembrança do “mala”, que conheceu os dois lados da malandragem, e pagou o preço.por isso.

A gente perde um sujeito amigo e inteligente. Vou sentir sua falta.

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