Pancho Galvez, os Penetras e a ‘dedada’


VALIOMAR ROLIM

Os comerciantes da cidade nem estranharam ao receber mais aquela comissão. Como sempre, tudo que era novidade começava com aquelas visitas em que, em nome das mais importantes causas, eram solicitados a contribuir, custear, patrocinar e, até, investir naquela efeméride que teria o condão de transformar seu negócio ou produto em algo nunca dantes imaginado.

Daquela vez era a apresentação de um grande cantor mexicano, o “famosíssimo” Pancho Galvez, a voz que encantava o México. O mexicano que fizera pontas em vários faroestes americanos, como aquela que cantava numa seqüência em que os bandoleiros faziam hora, ao redor da fogueira, aguardando o ataque no dia seguinte. Cajazeiras teria o privilégio e a honra de ter aquele artista internacional apresentando-se em praça pública, gratuitamente, tudo num projeto do governo mexicano, objetivando divulgar a música daquele país no Brasil, complementando com aquele contato pessoal o trabalho feito pelo cinema, à época, a manifestação artística que mais rompia fronteiras e aproximava os povos.

Era preciso fazer uma grande festa para a estrela norte-americana. Aquela comissão saía no comércio local vendendo quotas de patrocínio para arcar com as despesas de transporte e hospedagem do astro e sua banda. Se o comerciante, por falta de recursos ou desconfiando da alta soma a ser gasta só para transportar e hospedar aquela troupe, não comprava uma quota, pediam um brinde para ser distribuído durante o show, quando seu estabelecimento ou produto seria divulgado.

Os organizadores foram competentes. Estava tudo pronto. A avenida Presidente João Pessoa toda enfeitada, cheia de gambiarras, repleta de gente, só faltava começar a festa. No bar Centenário, ao lado direito da avenida, estavam concentrados os “Penetras” – turma de estudantes da legendária década de setenta – bebericando e aguardando alegremente o início do espetáculo, quando da chegada das bonitas e apimentadas filhas do dono do bar que, com sua presenças, multiplicaram a alegria e barulho que já era grande.

Bosco Lira, que funcionava como mestre de cerimônias do evento, mal começou seu trabalho e já os “Penetras”, sempre acompanhados das moças, davam mostras de que aquele não seria um show comum. Reclamou, apelou para o amor à cidade, lembrou que o cantor estava em excursão por todo o Brasil, que, por onde andasse, levaria má fama da cidade e que, o pior, Cajazeiras ficaria com péssimo nome no México. Conseguiu uma pequena trégua e anunciou o cantor.

Foi um verdadeiro caos. Ovos, tomates, bananas, laranjas, tudo foi usado como petardo contra o cantor. O barulho era ensurdecedor. A multidão aderiu à balbúrdia. Bosco Lira, confiante na trégua conseguida há pouco, voltou ao palco pensando conseguir acalmar a turba. Inútil, a confusão aumentou. Tentaram a medida extrema, confessar o que os “Penetras” já sabiam: que o cantante não se chamava Pancho Galvez, que nunca fora no México, que aprendera aquela postura e sotaque vendo os filmes de Cantinflas e que tudo era falso, menos uma coisa, era um grande cantor romântico e pedia uma oportunidade para mostrar seu trabalho.

O azar de Pancho Galvez foi que, tentando diminuir a exposição a um possível desmascaramento, diminuiu o contato com as fãs e, quando as coquetes filhas do dono do bar Centenário lhe fizeram a tietagem, foi ríspido e, como elas nunca foram de deixar barato, no primeiro descuido do cantor, catucaram-lhe entre as nádegas, aplicando-lhe uma brasileiríssima “dedada”, obtendo uma resposta nada mexicana:

– Frescura, porra!

DO LIVRO ‘O CRONISTA DO BOATO’, DE VALIOMAR ROLIM

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