Palanque da pesada

Gaiatice, fuleiragem e o mais puro espírito de cajazeirabilidade

VALIOMAR ROLIM

O Natal estava chegando. A cidade andava num desânimo há muito não experimentado. A grita era unânime, nos últimos tempos nada havia sido feito e a única coisa com que se convivia era o marasmo. O prefeito unira toda a cidade, todos juntos a falar mal dele. Aquele era o ano em que a prefeitura não poderia ficar a reboque, pensou. Teria de tomar a dianteira e promover um Natal de arromba, uma festa que tapasse a boca daquela oposição incompetente nas urnas mas pra lá de eficiente na instalação de uma central de boatos.

Assessores da municipalidade já sentiam-se vingados, viam a cidade toda decorada, iluminada, Papai Noel descendo de helicóptero no estádio cheio de crianças, distribuição de presentes, uma bandinha tocando temas natalinos e, antevendo o brilho da festa, suspiravam, imaginando a cara dos oposicionistas, mais uma vez derrotados.

Tomadas as providências, surgiram os primeiros contratempos. Onde conseguir um helicóptero? Tentou-se a Aeronáutica, o governo do Estado, o DNOCS e até companhias de táxi aéreo. Inútil, não havia um só aparelho daquele tipo disponível, outros haviam chegado primeiro. Não havia de ser nada, Papai Noel chegaria à cidade de avião, era até melhor, no aeroporto caberiam mais pessoas. Depois, haveria uma carreata que mostraria a toda cidade, até aos que ficassem em casa, a festa que a edilidade preparara.

O único item que não dera a menor preocupação ou trabalho extra foi a escolha do Papai Noel. O escolhido seria Castelo, um jovem e corado rapazola de cerca de 17 anos, imenso, pesando seus 150 quilos, que tinha anotado no seu currículo performances de Rei Momo e Papai Noel desde os 14 anos. Era tão óbvio que, convocado o concurso, foi o único a inscrever-se.

Dia 24 de dezembro, o natal chegara. Estações de rádio, serviços de alto falante, carros de som e todas as rodas de bate-papo da cidade embalavam-se num só assunto: a chegada de Papai Noel. A cidade era um enfeite só, restava unicamente aguardar, às 16:00 horas, a chegada de papai Noel, para detonar a festa.

No hotel do Brejo das Freiras, Castelo e os aviadores passaram o dia descansando. No almoço, o gordo não conseguiu resistir. Aquela comida gostosa fez aflorar toda a volúpia glutona do nosso obeso e jovem Papai Noel. O apetite foi voraz, sexual. Comeu tanto, tanto, que faltou comida para os pilotos que, admirados com o exagero, esqueceram de comer. Os garçons fizeram roda em torno da mesa para apreciar aquele apetite inédito.

Já embarcados e voando para a cidade, os aviadores, inspirados pela fome, resolveram dar o troco ao guloso. Puseram-se a fazer vôos acrobáticos e toda sorte de piruetas até virar o estômago de Castelo. Tão repleto estava, o agora bom velhinho, que o efeito foi duplo, foi ejetada a ainda matéria-prima para a produção de fezes, pelos dois maiores orifícios do corpo, tanto o de ingestão como o de eliminação.

A propaganda funcionou, o aeroporto estava repleto e o prefeito radiante. A vibração popular começou ao aparecer do avião. A descida do Papai Noel foi uma aclamação, um verdadeiro delírio. A distância, mantida pela segurança, protegeu a multidão de um certo odor que fazia com que o prefeito e autoridades, disfarçadamente, fechassem as narinas. Recebida a chave de cidade, Papai Noel subiu numa camioneta onde, acompanhado do prefeito e da primeira-dama, foi ao desfile pela cidade.

A primeira-dama, mais que o prefeito, estava azul, efeito daquele odor que, ossos do ofício, aspirara tanto tempo. Afortunadamente aquele torturante desfile estava chegando ao fim. Restava, ao subir no palanque, procurar um lugar bem distante do fétido Papai Noel e deixar para os demais o bônus de ficar junto dele e o ônus de suportar a “fragrância” que o acompanhava.

Chegada triunfal, apoteótica, Papai Noel deixou a praça em êxtase total. No palanque a agitação foi demais, todos logo queriam abraçá-lo de perto e, ao conseguir, afastavam-se céleres. Esse misto aproximação versus distanciamento foi tão intenso, tão rápido que fez com que todo o poder constituído do município caísse.

Junto com o palanque.

DO LIVRO ‘O CRONISTA DO BOATO’, DE FRANCISCO VALIOMAR ROLIM

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