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Gaiatice, fuleiragem e o mais puro espírito de cajazeirabilidade

FOTO ILUSTRATIVA
VALIOMAR ROLIM

Era ocupação demais. Waldemar não tinha tempo nem de lembrar do Melão. Comerciante em Cajazeiras, com lojas de tecidos, móveis e eletrodomésticos, não tinha tempo nem para rezar.

Agora, com a distribuição do gás, aumentou a preocupação. Uma cidade toda para atender, era demais. Todo dia, o dia todo, as reclamações apareciam. Parecia que não acabava mais. Negócio bom é tecido, comprou, fez a roupa, exibiu-se, ficou tudo bem. Até lembrava-se, via as mulheres mais elegantes da cidade, nas maiores e melhores festas, e dizia, só para ele: fui eu que vendi.

Quase cinqüenta mil pessoas, mais de quinze mil moradias. Era muita coisa para atender. Ainda mais agora, que se adicionou São José de Piranhas, Monte Horebe e Bonito de Santa Fé. Waldemar tinha muito mais orações do que podia rezar.

Todo dia, nos programas matinais das duas emissoras de rádio, saia: o plantão médico, as farmácias, as funerárias, as farmácias e o gás. Sentia-se importante na vida da cidade. Sem ele ninguém cozinhava, nem festas podia haver. E o hospital? Ah esse dava trabalho, um botijão especial, maior, grande, e o pagamento sempre atrasado.

Um lugar comum eram as críticas, as reclamações. Reclamavam de tudo, do peso do botijão, da tintura, dos entregadores, da entrega atrasada, de tudo. Só não havia elogios.

Um dia, depois de muitos problemas na loja de tecidos, na fazenda e em casa, apareceu uma freguesa. Queixou-se da entrega, que foi atrasada e mal feita. O entregador não respeitou nada nem ninguém, foi uma merda total.

Waldemar, danado da vida com tanta coisa, teve saudade dos tempos de menino no Melão. Não tinha complicação. Menino, filho do Mestre Matias, um garoto que o futuro só tinha a dar. A preocupação era esperar a noite, comer coalhada com rapadura e pão de milho, como era chamado o cuscuz no seu pedaço de sertão. Não podia mais era aguentar aquilo.

Aquela reclamação e reclamante eram demais. A cliente, digo, freguesa, bronqueou: era que o entregador havia arranhado o piso da casa dela, sujado uma sala que havia acabado de limpar, estragado um móvel, essas coisas. Waldemar, agastado com tudo isso, não resistiu, fez sua resposta.

Começou falando manso, disse que já havia chamado Dom Zacarias (o bispo), Dr. Firmino Gayoso (o promotor), Dr. Rui Formiga (o juiz), Dr. José Antônio (o diretor da faculdade), todos, dos mais finos e educados da cidade: “Mas, para fazer o que fazem, ganhando o que eles ganham, só aparecem moleques como aqueles”, concluiu.

E sem mansidão.

DO LIVRO “O CRONISTA DO BOATO: CAUSOS DE VALIOMAR ROLIM”

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