O reconhecimento artístico da xilogravura cearense em São Paulo


REGIONAL

A xilogravura do Nordeste ganha espaço em São Paulo neste segundo semestre, com grandes exposições, e o destaque para os xilógrafos da região do Cariri. A exposição “O Nordeste Reinventado na Imagem Gravada” pode ser contemplada, com cerca de 400 gravuras, produzidas por 27 artistas de todo o Nordeste, além de matrizes, no Centro Cultural de São Paulo, piso Caio Graco. O evento foi lançado no último dia 26 de julho e prossegue até 12 de outubro.

A exposição evidencia sete décadas de trajetória e evolução da arte de talhar na madeira. Ao mesmo tempo, conta a história do Nordeste e os seus principais personagens. Todas as ‘xilos’ foram doadas ao Centro Cultural pelo artista Bené Fonteles, que também é curador da mostra, que contou com a participação exclusiva em sua abertura do xilógrafo José Lourenço, de Juazeiro do Norte. Durante os dois primeiros dias, ele esteve produzindo xilos para o público contemplar o modo de criação e elaboração do trabalho.

Do total de xilógrafos que estão inseridos na exposição, 15 deles são do Cariri, principalmente de Juazeiro do Norte. Para José Lourenço, que deverá mais uma vez participar da feira com a produção de peças no próprio local, é uma oportunidade de evidenciar o trabalho dos artistas de Juazeiro, principalmente grandes nomes que influenciaram várias gerações, como Expedito da Silva, Mestre Noza, Walderêdo Gonçalves, e os mais contemporâneos, a exemplo de Stênio Diniz e Abraão Batista, a grandes nomes como Gilvan Samico, xilógrafo pernambucano já falecido e homenageado durante a exposição.

O evento também conta com destaque de trabalhos como o do juazeirense Stênio Diniz, de Juazeiro do Norte, que já chegou a expor suas obras em várias mostras na Europa, sul e sudeste do Brasil. De acordo com José Lourenço, tem sido uma alternativa importante para a divulgação do trabalho, já que a Associação dos Xilógrafos e Artesãos do Cariri tem mantido um empenho maior em fortalecer o trabalho dos xilógrafos no Cariri, celeiro maior desses artistas.

Origens

Com pouco mais de cem anos, desde que chegou ao Brasil, provinda da península ibérica, foi no Nordeste que a xilogravura se evidenciou, estampada nas capas dos cordéis, servindo com um dos mais populares meios de comunicação. A poesia matuta encontrou o casamento perfeito com as imagens talhadas na madeira de imburana ou cedro, levando os personagens do sertão à linguagem simples do sertanejo. Grandes história, resumidas em prosa e verso.

Durante a apresentação dos trabalhos, Bené Fonteles ressalta o nascimento da xilo, das mãos calejadas do homem do campo, já que a maioria desses gravadores eram da agricultura e de aguçada inspiração para retratarem o seu cotidiano nos desenhos das matrizes em madeira. Ele ainda reafirma o trabalho do santeiro Mestre Noza, considerado um artífice também da xilogravura e o primeiro a ser conhecido nacional e internacionalmente, nos anos de 1960, descoberto pelo, também artista, Sérvulo Esmeraldo, que chegou a editar o álbum do xiológrafo “Via Sacra”, em Paris, em 1962.

Cordelistas

Além da exposição no Centro Cultural de São Paulo, a Casa da Xilogravura, em Campos do Jordão, no interior de São Paulo, também está realizando mostra dos trabalhos de artistas do Cariri. Essa já traz uma exposição temática que retrata a vida e a história dos próprios cordelistas. “Minha Vida na Xilogravura”, com 10 gravadores levando os seus traços para o público, tem contemplado a arte que vem resistindo no Cariri.

“Essas são alternativas que temos para levar lá fora o nosso trabalho, com a valorização dessa arte no Sul e Sudeste”, afirma Cícero Lourenço, que, há vários anos, tem desenvolvido o seu trabalho juntamente com outros artistas na gráfica Lira Nordestina (antes, Gráfica São Francisco), uma das mais importantes no País, na impressão dos cordéis.

Na abertura da exposição em São Paulo, José Lourenço destaca a participação de um grande público e refere-se ao sucesso da feira. “É um trabalho bem montado e que valoriza bem a nossa arte”, aponta.

Para José Marcionilo, ou simplesmente “Nilo”, esse é um momento de grande relevância para a xilogravura. Vários dos seus trabalhos estão expostos no Centro Cultural. Ele afirma que os artistas precisam de maior incentivo e de projetos que levem essa arte até as escolas, por exemplo, para que as novas gerações tenham acesso a esse trabalho.

Dificuldades

A maioria desses artistas começou a aprender o ofício muito cedo, mas para Nilo é muito difícil trabalhar com uma proposta puramente artística. Houve uma redução drástica na produção dos cordéis. A Lira Nordestina, por exemplo, está há mais de dois anos sem imprimir os seus conhecidos folhetos.

Em São Paulo, além da participar da exposição, José Lourenço decidiu pesquisar espaços onde pudesse localizar profissionais que produzissem artesanalmente os tipos móveis. Chegou a encontrar a rara oportunidade de negociar a reposição das peças, com a esperança da reativação da Lira e, consequentemente, da produção de cordéis. Ele é um dos xilógrafos que têm buscado expandir o uso da xilo como alternativa de sobrevivência da arte, em busca de suas múltiplas facetas.

Para Nilo, é importante que novas oportunidades surjam para que haja um fortalecimento e reconhecimento maior do ofício. Ele mesmo já chegou a ter seus trabalhos em exposições do sul e sudeste brasileiros, além de França e Alemanha.

Também estão presentes no Centro Cultural, trabalhos dos artistas Airton Laurino, Antônio Celestino, Elosman, Francisco de Almeida, Expedito da Silva, Gilberto Pereira, Hamurabi Batista, João Pedro do Juazeiro, Manoel Inácio e Naldo

DIÁRIO DO NORDESTE

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