O entrevistado

A COLUNA DE IVÂNIA CRISTINA LIMA MOURA

Ele veio e nem parecia tão preciso. Parecia meio tonto, abobalhado. Tinha um traço mitológico no apelido, que usava como grife. A aparência, na verdade, de vendedor. Vendia algo incerto, obtuso. Vendia, sei lá. Parecia que vendia panela, plano de saúde, confecção, imóvel. Panela pra ser utilizada no fundo do oceano. Plano de saúde pra animais invertebrados com antenas encolhidas e observadas apenas por um telescópio desenvolvido pela equipe de uma sociedade secreta. Confecção pra crianças nascidas apenas em anos ímpares, meses pares e dias de lua cheia. Imóvel do segmento embargado e visitado por dezenas de gerações localizadas em cidades montanhosas. Esse era o tipo de papo dele. Coisas improváveis ou dificílimas de acreditar. Mas, era pauta a cumprir.

Disse, ele próprio, que deveria usar óculos. Seria até menos confuso. Não usava perfume, ao que percebi, quando chegou mais perto, rompendo aquela barreira regimental das formalidades. Usava sempre uma camisa xadrez: azul, branca e amarela. Encardida. Fedia a peixe engordurado. Eu queria sair dali. Logo. Ficar invisível. Entrar numa cápsula do tempo. Mas, era pauta a cumprir.

Incrível como falava alto. A boca grande, os lábios quase imperceptíveis. Faltava desenho no rosto. Sorriso de cartaz, aquele forçado. Fazia um discurso cheio de chavões, frases compradas por ele mesmo, enlatadas pelos parentes, plastificadas na surdina, algemadas nos porões das ideias. Pedi água. Rezei silenciosamente pra sair dali. Mas, era pauta a cumprir.

De repente, um clichê. Mais na frente, lugares-comuns. Citações dele mesmo em obras nunca visitadas. Confundia os sobrenomes. Miguel de quê? Fernando de quem? Machado de onde? Nunca tinha lido a sério. Assim como o dia vem depois da noite. José de quê? Drummond de quem? Pedi pra ele repetir. Desconversei. Pedi perdão aos mestres. E começou a falar apressado, como se fugisse. Ora, mas era eu quem queria fugir. Olhou de lado. Não havia ninguém. Olhou de novo. Engasgou-se. Olhou de novo. Era um vulto, segundo ele. Garanto que eu queria falar com aquela suposta alma penada. Mas, era pauta a cumprir.

Entre um tema e outro, gaguejava. Uma gagueira discreta, mas, em se tratando do semblante dele, era desconcertante, teatralizada. Parecia que comprava as frases num supermercado, em embalagens de papel. Noutras construções, mirava o teto, como se lesse ali numa cola. Buscava palavras, aposto com quem quiser, saídas de um pensamento falso. Geleia verbal. A boca começou a ficar parecida com um bico de coruja. Bebi mais água. Desliguei o gravador.

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *