O amor perdido e a crença no poder da magia para trazê-lo de volta compõem o novo longa de Bertrand Lira


O amor e suas desventuras com seus percalços tortuosos da busca pela realização amorosa são o fio condutor dos relatos que organizam a narrativa de Seu amor de volta (mesmo que ele não queira), documentário de longa-metragem dirigido e roteirizado por Bertrand Lira. Para abordar esse universo, cartomantes e videntes são convocados para usar os seus dons metafísicos a favor dos personagens. Cartas, búzios, banhos de ervas, oferendas são as armas mágicas recomendadas na jornada dessas personagens reais: um maquiador e professor de artes; uma travesti, professora de português, e duas atrizes, que vivem e trabalham na capital da Paraíba, no nordeste brasileiro. Seus relatos são entrecortados por consultas a cartomantes e pais de Santo que vão prever o futuro deles, aconselhá-los no que diz respeito à sua vida afetiva.

Sobre a personagem Laura de Jezebel, alter ego do ator e maquiador William Muniz, e sua saga amorosa com Pântano, pseudônimo de seu grande amor, ele diz: “Foi através de Laura que eu vivi tanta coisa. Laura foi a forma que eu me encontrei de viver minha vida como mulher. Laura é mulher, Laura não é transexual. A Laura que eu escrevo é mulher ou eu tento colocá-la como mulher, eu tento exercitar e criar como mulher, porque desde criança ser mulher para mim era muito mais glamuroso.”

Nessa abordagem, as personagens são convocadas a encenarem seus próprios papéis (“auto-encenação”), em ações e situações provocadas pelo diretor durante o processo de realização do documentário, a exemplo das consultas nos “consultórios sentimentais”. Aqui, elas foram capturadas pela câmera “ignorando” sua presença, a exemplo do que ocorre num filme de ficção ou num documentário de estilo observacional. O relato de histórias para uma cartomante é o elo entre as personagens cujas histórias são entrecruzadas na montagem.

Para Bertrand Lira, trabalhar esse tema era uma necessidade. “Por que essa nossa obsessão para amar e ser amado por uma pessoa que ainda nem conhecemos na sua plenitude? Seria esse desejo fruto de um condicionamento social ou uma necessidade natural já impressa no nosso DNA? Por que dependemos tanto de outra pessoa para a nossa própria realização afetivo-emocional?” No entender do diretor, o documentário não pretende responder essas questões, mas, através das histórias de perda e frustração, tenta colocar a questão em debate.

Filmado entre abril e junho de 2017, em João Pessoa, Seu amor de volta é o segundo documentário de longa-metragem do diretor (o primeiro foi O rebeliado, realizado em 2009) e de uma única ficção, de curta-metragem, A poeira dos pequenos segredos (2014). É fruto do Edital Prêmio Walfredo Rodriguez de Produção Audiovisual 2014/2015, uma parceria da Funjope/Prefeitura Municipal de João Pessoa – e Governo Federal (Agência Nacional de Cinema – ANCINE/Secretaria do Audiovisual – SAV).

O documentário tenta fazer o expectador se reconhecer nesses fragmentos de histórias e divagações que não se constituem uma narrativa acabada, mas momentos de vidas, lacunas a serem preenchidas pelo expectador a partir de suas próprias vivências, numa proposta aos modos de um filme ensaio, com um ponto de partida definido mas sem a certeza de uma chegada.

Sobre o diretor

Bertrand Lira é professor doutor do Departamento de Comunicação em Mídias Digitais e do Programa de Pós Graduação em Comunicação (PPGC) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), graduado em comunicação social e mestre em Sociologia, também pela UFPB. Realizador, dirigiu diversos documentários de curta, média e longa-metragem em super-8, 16mm e vídeo (Bom dia Maria de NazaréO senhor do engenhoCrias da PiollinHomens (co-dirigido com Lucia Caus), O rebeliado e O diário de Márcia, entre outros), premiados em festivais no Brasil e no exterior, entre eles o JVC Grand Prize do 26º Tokyo Video Festival  e o Excellence Award do JVC Tokyo Video festival de 2004. Foi aluno de estágios em documentário no Atelier de Réalisation Cinématographique (VARAN) em Paris (1982 e 1986). Autor dos livros Fotografia na Paraíba: Um inventário dos fotógrafos através do retrato (1850-1950) (1997), Luz e Sombra: significações imaginárias na fotografia do cinema expressionista alemão (2013) e Cinema Noira sombra como experiência estética e narrativa (2015).

COM INFORMAÇÕES DE A UNIÃO

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