O adorno vivo


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Depois de passar toda a tarde daquele domingo lavando e polindo seu Jeep 63, zero quilômetro, ainda sem placas, Waldemar não via a hora de terminar a missa das sete para exibir seu brinquedo novo no tradicional passeio da praça João Pessoa.

O passeio, talvez hoje ainda exista, era um dos acontecimentos sociais que mais agitavam a vida de Cajazeiras no passado, um dos raros divertimentos que a cidade proporcionava aos seus habitantes.

As moçoilas (e até as não tão moçoilas assim) passeavam de braços dados pela calçada, do lado do velho restaurante Alvorada, enquanto os rapazes, encostados nos carros, as observavam, soltavam galanteios ou mandavam bilhetes. Os mais abastados e mais maduros circulavam a praça, hoje chamada de avenida, a bordo de seus automóveis. Havia ainda as músicas oferecidas, sempre por um alguém não identificado, na velha difusora. Quantos romances, quantos casamentos não tiveram seu início naquelas memoráveis noites de Domingo.

Era um Domingo de início de mês de férias, um Domingo especial. A praça estava lotada, quem não estava de roupa nova usava as melhores domingueiras. Uma noite de encomenda para se estrear um carro, e ele foi, acompanhado de toda a família, completar seu programa dominical.

Na primeira vez que passou, Waldemar ouviu o barulho das risadas que foram dadas em coro por todos que estavam na praça. Aguçou a curiosidade, algo de diferente estava acontecendo, o que fariam com que todos rissem assim, com tanta intensidade, com tanto barulho? Daria outra volta, teria de saber o que era.

Voltou à cena. A praça toda ria, gritava, se esbaldava. Durante todo o percurso do passeio era uma risada só, parecia o auge de uma comédia de Oscarito. Aquilo teria de ser um acontecimento ímpar, uma coisa nunca vista, pensou. Quis parar o carro para perguntar, mas Maria Augusta o convenceu a dar outra volta. Daria até dez, pensou, mas saberia o que estava acontecendo.

Passou mais uma vez, na maior vagareza possível, a barulheira continuava ensurdecedora, parecia que era maior nas proximidades do seu carro. A curiosidade da família tornou-se incontida, daquela vez parariam e perguntariam a qualquer um, teriam de saber do que se tratava. Já diminuíam a marcha do carro, quando o velho amigo Hildemar Pires, o Pibral, acenou e avisou que era o seu jeep, zero quilômetro, o motivo de tudo aquilo.

Qual não foi a decepção de Waldemar. Fez tudo: lavou e poliu o carro, mas não olhou o pára-choque dianteiro, não viu as galinhas que, encandeadas com os faróis do carro, mantinham-se agarradas à haste de fixação das placas.

VALIOMAR ROLIM PARA O GAZETA DO ALTO PIRANHAS

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