Minha avó caridosa e esquecida: Dona Cartuxinha

A COLUNA DE SAULO PÉRICLES BROCOS PIRES FERREIRA

COISAS DE CAJAZEIRAS
DONA CARTUXINHA PIRES / FOTO: ACERVO FAMILIAR

Quando eu era quase menino, minha mãe – e que mãe eu tive, D. Íracles Brocos Pires – Ica, ela, quando eu perguntava acerca do Major Hygino Rolim, meu bisavô, que eu achava que por não ter sido formado em Farmácia seria um “curandeiro”, ela me explicava que se ele fosse, seria um prático bem intencionado, ou um curandeiro do bem. Outra vez perguntei sobre o pai dela, que hoje sei que foi o calculista, entre outras coisas da Catedral Diocesana, inclusive dessa torre que ainda é a construção mais alta de nossa cidade, ela, em seu livro ainda inédito, não tecia críticas ao seu pai, me deu uma resposta que até hoje como que fico a ouvir: “Meu filho, se você não der valor aos seus, quem o dará?”.

Num recente encontro com Dr. Abdiel de Souza Rolim, odontólogo decano, comunista histórico, ex-vice-prefeito e uma das poucas pessoas que tentam dar valor às coisas da terra, e promovem autênticas cruzadas, como reivindicar o retorno da rede ferroviária passando por nossa cidade, em que nesse e noutros pontos, eu lhe dou completa razão.

Bem, mas nessa última conversa que tivemos, Dr. Abdiel me chamava a atenção para o pouco reconhecimento que um ancestral meu recebe de nossa cidade, frente a obra, especialmente de caridade que ela fazia, minha avó paterna, D. Crizantina Pires Cartaxo Sobreira Rolim, mais conhecida como D. Cartuxinha, que a gente a chamava carinhosamente de “Mãezinha”.

Qualquer pessoa que viveu as décadas de 50 – 60 em nossa cidade, testemunhou que, especialmente às quintas-feiras, chegavam muitos pedintes em sua casa e ela distribuía esmolas numa profusão que, mesmo hoje, não consigo ver alguma coisa semelhante: as filas eram sempre de mais de 20 ou 30 pedintes, que recebiam feijão, farinha, um pedaço de rapadura e algum trocado que quando meu avô Major Galdino recebia: notas velhas e rasgadas que ela mesma fazia questão de consertar com papel e grude de goma. Eu, muito novo ainda, a ajudei nessa tarefa, que ela, já idosa, punha seus óculos de grau e “consertava” aquelas notas.

Seu marido, meu avô, o Major, como o chamávamos, fazia farinhadas e enchia baús dessa mercadoria, enchia silos de feijão e fazia moagens nas suas fazendas, e depois, no final do ano, perguntava: “Cartuxinha, o que foi feito com a farinha, as rapaduras e o feijão?” E ela respondia: “Dei de esmola, Galdino”, o que ele, naturalmente, já sabia. O fato é que o Major Galdino, quanto mais sua esposa deva esmolas, o que hoje quase não se vê, e a caridade pelos mais novos é vista como “coisa de gente besta”, mais rico o Major ficava, e quando morreu, aos 90 anos, era o homem mais rico da cidade. O Major, que como todo Pires – eu, meu pai e parte de minha descendência – temos o hábito de falar só, segundo alguns que o conheceram diziam; ficava rodando as chaves da sua “loja”, falando com seus botões: “O comunismo vai chegar, vai levar minha loja, minhas fazendas, Cartuxinha”… Ai parava, pensava, e depois ficava rodando o molho de chaves para o outro lado, dizendo: “Cartuxinha não, Cartuxinha não!!!” Os dois, meus padrinhos de batismo, que os conheci já idosos, era um casal muito unido, afetuoso e sobretudo, de sucesso, merecem todo tipo de homenagem.

Mas voltando ao assunto sobre minha avó, que tinha essa vocação para fazer a caridade, era cristã e católica fervorosa, que ia, já bem idosa, arrastando suas chinelas a caminho da missa dominical e somente deixou de o fazer quando foi proibida pelo bispo Dom Zacarias que explicou que a missa transmitida pela rádio “valia como a assistida na igreja”, somente assim ela parou de fazer esse sacrifício semanal.

Dona Cartuxinha nos deixou em 1975, na maior serenidade. Um dia depois, seu único irmão, Dr. Christiano Cartaxo, a seguiu para o repouso eterno, ambos já de idade bastante avançada. Segundo minha mãe, D. Cartuxinha virou “um espírito de luz”. Quando de seu falecimento, todos os seus seis filhos, noras e genro, por aqueles acasos que nos faz acreditar que o sobrenatural exista, estavam na cidade, e a maioria deles presenciou a sua, como dizem os espíritas, “desencarnação”, no seu leito de morte. Dos seus netos, somente eu, Jeanne minha irmã, Estenio, filho de D. Diva, tivemos que nos deslocar de Recife para seu enterro. Coisa que quem realmente fez o bem durante toda a sua vida…

Mas, e as novas gerações talvez não conheceram, e os tempos eram outros, nos tempos de Dona Cartuxinha, não existiam as aposentadorias, nem a Previdência Social atuava, esses programas de redistribuição de renda nem existiam projeto, muita gente deve sua sobrevivência, tenho certeza, à caridade de minha avó, que nunca foi lembrada por nossos entes públicos para que merecesse pelo menos uma artéria de nossa cidade ostentar seu nome. Ela, e muitos outros fazem por merecer e não são lembrados. Nisso, dou razão a Dr. Abdiel: nossa cidade é ingrata para com D. Cartuxinha e muitos outros, em que com muito menos méritos são homenageados.

Assim, fica o registro e minha homenagem à minha avó, pelo seu neto muito menos merecedor. Somente quem viu, sabe a grandiosidade da obra de caridade minha avó, com seus recursos, e sem pedir a ninguém fazia e por tanto tempo. Se os homens daqui não a reconhecem, os do alto, certamente a reconhecerão.

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