Meu amigo Gasparzinho

A COLUNA DE IVÂNIA CRISTINA LIMA MOURA

O fantasminha camarada começou a ser produzido, nos Estados Unidos, em 1939. Eu o conheci mais de quarenta anos depois. A ideia da criação do personagem é fazer com que um ser, na maioria das vezes, assustador, seja legal com os outros. Que não seja horripilante, maldoso ou obsessivo. Mas, em pleno século 21, um hábito insiste nos usuários da língua portuguesa: através. O uso constante e desenfreado da palavra. Vamos deixar claro aqui que Gasparzinho é quem pode fazer isso, largamente. Ele consegue ir através de paredes, portas, janelas, fendas, armários, árvores, pedras ou buracos de fechaduras.

Através é um advérbio engraçado. Vem se instalando como gripe em dia de chuva depois de noite quente. Milhares de pessoas o utilizam. Exemplo: Os policiais conseguiram chegar àquela suspeita através da mata. Aí, tudo bem. Através, de um lado a outro. Está claro como a água da fonte. Outro caso: de ponta a ponta. Exemplo: Os investigadores foram de canoa através do Açude de São Gonçalo. Beleza.

O negócio é que o bendito advérbio, que deveria estar tranquilo com meu amigo Gasparzinho, está na ponta da língua de diversas pessoas em carne e osso. Não estou lembrando de falantes informais, apenas. Falo de escritores, juristas, líderes religiosos, articulistas, jornalistas, gente que depende das palavras. O melhor remédio: por meio de. É a opção mais acertada para não agir como o fantasminha e sem autorização.

Outro caso tranquilo: no decorrer. Ninguém vai implicar. Exemplo: A atleta nunca venceu, mas se conformou através do tempo. Pronto. Resolvido. Mas usar através, assim ou assado, adoidado, a rodo, é feio. Falas frequentes: Nossa cidade melhorou através do trabalho do Secretário Tal. Nossa igreja vem crescendo através dos trabalhos de evangelização. Meus eleitores, venho, através desta inauguração, agradecer à comunidade do Sítio Tal. Que medo. Não é errado, é esquisito.

Mas, meus amados leitores, venho, através de tanta coisa presente, dizer, de novo, que tudo isso que falei pode não existir daqui a uns cem anos. Que gramáticas se dissolvem ou se resolvem na rua. Que acordos ortográficos vão e vêm. Que nossa língua é nossa transformação. Que nossos falares e quereres, agora saúdo Caetano, são repletos de nossos pensares e estares no mundo. Que temos até direito de falar ou escrever de qualquer forma.

Venho, através de mim mesma, garantir que as palavras podem ser amigas como Gasparzinho, mas tenebrosas como o opositor dele, Brasinha. De todo jeito, é preciso cuidado.

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