Memórias do Açude Grande

A COLUNA DE MARIANA MOREIRA

COISAS DE CAJAZEIRAS
AÇUDE GRANDE DE CAJAZEIRAS / FOTO: CHRISTIANO MOURA

A primeira imagem que guardo do açude grande de Cajazeiras traz a moldura de uma porta de sala de aula. O ano, 1971. No ano anterior não consigo aprovação no Exame de Admissão para ingresso no Colégio Estadual. Minha cabeça estava voltada muito mais para as bonecas de pano, os banhos de açude e as mangas espontaneamente degustadas nas frondosas sombras do baixio. Neste universo não cabiam ditongos, hiatos, adições, descobertas marítimas.  Reprovada também não poderia repetir o ano no Grupo Escolar Lindalva Claudino, no Distrito de Fátima. Faltava companhia para o considerável percurso entre Impueiras e a escola.

Consigo uma vaga na Escola Lica Dantas, no turno da tarde. A sala de aula tinha uma porta que se abria para o açude grande. De minha carteira, em frequentes momentos, espichava os olhos na direção daquela imensidão de água que se agigantava ante as reduzidas medidas do pequeno açude nosso em Impueiras. Um pequeno açude, que secava quando os quentes ventos de setembro tangiam os redemoinhos sertanejos, mas agigantado nas proporções infantis.

E o açude grande que meus espantados olhos infantis, amedrontados com as novidades urbanas, captavam tinha sempre barcos de pescadores rendilhando os céus com suas redes sequiosas de peixes. Tinha sempre serelepes meninos inventando acrobacias nos saltos dos muros do Cajazeiras Tênis Clube. Tinha sempre touceiras de aguapés que desabrochavam em singelas e imponentes flores a desafiar o humano desejo de sujar suas águas. Tinha sempre trouxas de roupas que adornavam cabeças de lavadeiras exalando cheiro de quarador e anil.

Em incontáveis momentos o brilho do sol refletido nas águas do açude grande ofuscava a porta da sala de aula como a tanger para longe as saudades de lugares escondidos nas sombras e dobras do Serrote do Quati. A brisa desenhava círculos dançantes em tuas águas douradas de sol que me encantavam. E sequer sabia que a seca de 1970 tinha te roubado parte considerável de teu volume de água. E, somente no ano seguinte, a tua beleza se completa em minhas memórias. O teu sangradouro engravida de tuas águas revoltas e misturadas de aguapés e esperanças. A ponte de madeira que, nos finais de tardes acolhia a procissão de lavadeiras e suas trouxas, agora encantava os olhos da menina acanhada que, inebriada pelo cheiro da água em movimento, desejava tão somente ousar uma acrobacia como a imitar os livres moleques de braços abertos na direção de tuas águas.

Hoje, a tentativa de pessoas e entidades para te redimir da iminente destruição que a poluição, a especulação imobiliária e o descaso do poder público te impingem, me anima a alma e me contagia a vida.

Quem sabe, cumpro meu infantil desejo de ensaiar acrobacias saltando dos muros do Tênis Clube e singrando tuas águas na direção do poente onde o sol do fim de tarde encontra o Serrote do Quati e as memórias de Impueiras.

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