Impressões de viagem

A COLUNA DE MARIANA MOREIRA

Da minúscula janela da aeronave uma imensidão de verde se aproxima de minha visão. A melancolia do verde é, recorrentemente, quebrada por sinuosidades que sinalizam cursos de água que correm na direção do mar. Em outros momentos manchas disformes revelam a presença humana sangrando, com sua irresponsável ganância, um equilíbrio que as outras espécies teimam em respeitar.

Em terra, na centenária cidade de Belém, e sob as bênçãos da Virgem de Nazaré, me hospedo em um agradável hotel no centro histórico, tendo como vizinho um deslumbrante parque, o Mangal das Garças, onde a riqueza amazônica se mostra em sua diversidade tropical. Aí me transporto para a fascinante literatura da Maria Valéria Rezende quando um bando de guará vermelha atrai meus olhos e sentimentos para uma touceira de bambu protegida pelas águas de um pequeno lago.

Participando do congresso nacional do nosso sindicato docente no caminho diário para a universidade percorro um significativo trecho da cidade que foi sendo ocupado pelos homens de forma aleatória e no ritmo das incursões e processos culturais, políticos, econômicos que vão separando as pessoas por sua renda, seu nível de alfabetização, sua cor da pele, sua procedência geográfica. Assim, muitos dos rostos que visualizo, da janela do taxi, em calçadas, becos, vielas trazem os traços de nossos índios desterrados de suas origens e vivências pela cristianização, pelas fronteiras agrícolas, pela garimpagem oficialmente ilegal, pelas rodovias que “integram”, pelas ferrovias que “desintegram”, pelas barragens e usinas que “iluminam” de progresso as trilhas da destruição de experiências e modos de vida.

Rostos que trazem as marcas, traços e sabores de tantos sertanejos nordestinos que, açoitados pela seca, são conduzidos pela oficialidade das políticas de extração da borracha como solução para o que, culturalmente, transforma natureza em determinismo e a seca em maldição irreversível.

Os rostos e traços de tantas gentes que, em calçadas e terrenos entulhados de lixo, partilham o espaço com uma abundante população de urubus que, de forma indolente, ensaia vôos sob barracas que vendem açaí, farinha de mandioca, frangos.

De repente, um varal tremula roupas que secam tranquilamente entre buzinas e fumaça de escapamentos. Uma imagem que traz reminiscências musicais: “são casas simples com cadeiras na calçada. E na varanda escrito em cima que é um lar”.

Nas discussões sobre a defesa da universidade pública, gratuita, laica, de qualidade, vejo como, na diversidade de um país continental, temos, pelos flagrantes que Belém me propicia, uma responsabilidade cidadã e política: continuar a peleja por dignidade para gentes, bichos e espaços.

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