De cores, usos e costumes

A COLUNA DE FRANCELINO SOARES

Em pleno ano de 2019, portanto já distantes dos usos e costumes de quase setenta décadas passadas, a mídia nacional, nestes tempos de verdades e inverdades que têm dominado o nosso mundo político, a Ministra Damares Alves, dos Direitos Humanos, aventurou-se incursionar por um terreno polêmico, que vem aguçando discussões sobre a tal identidade de gênero, ou melhor dizendo, teceu comentários sobre um hábito cultural de há muito enraizado no domínio popular do nosso País:  “meninos vestem azul; meninas vestem rosa”.

Ora, os desavisados de última hora, que não existiam há pouco mais de três décadas, houveram por bem misturar as coisas. Explico-me melhor: as cores sempre fizeram parte do nosso quotidiano, de um passado não tão remoto: quando uma criança estava para nascer, num tempo em que ainda não era possível prever o “sexo biológico” do nascituro, quando não havia o avanço médico de hoje e não se previa com segurança se seria menino ou menina, os pais, sobretudo as mães, aventuravam-se em preparar um berço – azul ou rosa, às vezes com as duas colorações – para receberem o “rebento”. Nunca se estranhou este hábito!…

Igualmente, as escolas, por exemplo, da alfabetização aos cursos mais elevados, adotavam fardamentos sempre confeccionados em azul e branco, fossem para meninos, fossem para meninas, obviamente, “cada um na sua”: meninos, calça e camisa; meninas, saia e blusa, numa época em que às meninas ainda não lhes era permitido usar calças compridas, bermudas, shortinhos ou vestimentas semelhantes. Aulas de “roupas comuns”, sem farda, nem pensar…

As cores também se mantiveram/se mantêm em ocasiões propícias e adequadas: Copa do Mundo, verde e amarelo; celebração de casamentos: noiva, de branco: noivo, de terno escuro. (Não sei bem se eram recomendações eclesiásticas, mas que era assim, era…)

Quando do falecimento de algum familiar, guardava-se o “luto fechado” – preto – por até um ano –, sendo que, para os menos idosos, depois de seis messes o luto era aberto, ou “meio luto”. Até nas missas de um ano de falecimento, o luto, numa ou noutra proporção, era mantido. (Nessas ocasiões, até nas escolas, o uso do fardamento era dispensado!).

Nas tradicionais “festas da padroeira”, conhecidas como quermesses constituíam-se os pavilhões, as populares barracas azul e encarnado.

Mantém-se o costume bem recente do “outubro rosa” (prevenção ao câncer de mama) e “novembro azul” (prevenção ao câncer de próstata). Novamente as diferenciações: mulheres e homens…

E por que trato do assunto? Simplesmente para lhes dizer que o uso de cores nas vestimentas estava e, em alguns casos ainda permanece, atrelado aos hábitos e costumes, contra os quais não adiante se insurgir.

Devemos, portanto, não contrariar as tradições… O tempo é que fará com que as esqueçamos ou as abandonemos. Por enquanto, ainda respeito a tradição: “meninos vestem azul; meninas vestem rosa”.

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