De Cajazeiras a Mauriti

A COLUNA DE FRANCISCO SALES CARTAXO ROLIM

Em quarenta dias estive em Cajazeiras duas vezes. Coisa rara. Tento ajudar a construir a Academia Cajazeirense de Artes e Letras, não importando enfrentar a distância de 600 quilômetros. Aqui, cumpri a rotina da caminhada no balde do Açude Grande, menos vezes do que gostaria de fazê-lo. Não foi preguiça nem a chuva. Apenas senso de responsabilidade. Bendito hábito que cultivo desde a adolescência. Preciso conhecer melhor meu Patrono na ACAL, Antônio Joaquim do Couto Cartaxo, o segundo cajazeirense a concluir o curso de direito (1862) em Pernambuco. O primeiro foi Manuel de Sousa Rolim, irmão do padre Rolim, em 1839. O terceiro, Joaquim Gonçalves Rolim, filho do comandante Vital, já no ano da proclamação da República, 1889.

Cajazeiras tem forte ligação com o Cariri.

Por isso, fui a Mauriti, na companhia do professor Sebastião Moreira Duarte, que também buscava remexer o passado, através do padre Argemiro Moreira, personagem expressivo da religiosidade naquele município cearense. Repartimos, assim, impressões e alegrias, nascidas de “descobertas” históricas. Entramos, por exemplo, no casarão da fazenda Araticum, onde morou e faleceu Antônio Joaquim do Couto Cartaxo. Casado com a cearense Maria Leopoldina Dantas de Quental, meu Patrono dividiu-se entre a Paraíba e o Ceará, no exercício de atividades profissionais na magistratura, na advocacia, na política, na agropecuária.

Na Paraíba, foi juiz municipal em Cajazeiras, deputado provincial (1864-1865), deputado federal constituinte (1890-1892). No Ceará, juiz em Milagres, deputado provincial (1878-1879), chefe político no Cariri, onde vivenciou com seu duplo cunhado, Miguel Gonçalves Dantas de Quental, (capitão Miguelzinho), os primórdios de Mauriti. O capitão Miguelzinho montou os alicerces reais do núcleo urbano, e Couto Cartaxo, com seu prestígio político superou obstáculos à criação formal do município. Isso lhe deu a glória de ter uma estátua na principal praça de Mauriti.

Esses fatos, sabemos pela leitura de livros, de documentos antigos, jornais velhos e via tradição oral. Mas nada como a emoção de ver na parede da casa grande da Araticum o retrato, bem conservado, de Joaquim Antônio do Couto Cartaxo, meu tataravô, o português da vila do Cartaxo, que aportou ao Recife, atravessou vales, serras e rios, percorreu veredas do sertão até esbarrar no Rio do Peixe. Aqui, virou fazendeiro. Casou-se duas vezes. Teve 14 filhos, dois dos quais se estabeleceram no Cariri: o já citado Antônio Joaquim do Couto Cartaxo e Ana Cordulina do Couto Cartaxo, que se casou com o capitão Miguelzinho, o fundador de Mauriti.

O advogado Couto Cartaxo é irmão mais velho de João Antônio do Couto Cartaxo, o jovem tenente da Guarda Nacional, chefe do Partido Liberal, abatido a tiros na praça da Matriz, em 1872. Ele teve destaca atuação no desdobramento judicial e político do sangrento episódio histórico.

O sucesso de nossa viagem a Mauriti se deve a quatro pessoas. O cicerone Eldon Bandeira, ao ex-prefeito Márcio Martins Sampaio, atual proprietário da casa que fora de Couto Cartaxo, aliás, muito bem conservada. Proveitoso foi encontrar meu xará, Francisco Cartaxo Melo, presidente da Fundação Zefinha Cartaxo, que mantém a casa e a memória do capitão Miguelzinho. E o apoio logístico? Foi irretocável, a partir do escritório de contabilidade de Wilson Mateus, bacharel em direito pela FAFIC.

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