Cidade no Ceará faz bingo para sortear poço artesiano


bingo2_620x465

A cidade de Pentecoste (CE) está em situação de emergência devido à seca que já dura três anos. Os agricultores perderam quase toda a safra, parte do gado morreu e a população da zona rural está sem água potável. Para tentar amenizar a situação, uma entidade local realizou em setembro um bingo que sorteou a perfuração de um poço profundo entre 2.200 compradores de uma cartela de R$ 10.

Venceram a dona de casa Maria do Socorro Costa, 41 anos, e o agricultor Egilázio Freitas Silva, 52, que completaram todos os números de sua cartela. O poço, claro, não pode ser dividido. O jeito foi vendê-lo para um terceiro apostador, o mecânico e agricultor José Dalvani Chaves, de 44 anos, que chegou a participar do bingo com três cartelas. Após a compra, ele irriga uma pequena plantação de coco na zona rural do município. “A aquisição valeu a pena pois agora minha família tem água para beber, usar na alimentação e outras utilidades do lar”, explica. Ele pagou R$ 4 mil pelo prêmio (a perfuração e uma bomba), mas teve que investir mais R$ 12 mil porque a primeira escavação não encontrou água.

A dona de casa que originalmente venceu o bingo vive na zona urbana da cidade, ainda com acesso a açudes da região. Esse foi o motivo que a levou a vender o poço. “Eu ganhei, mas analisando bem, não tinha como ter um poço aqui em minha casa. A dificuldade por água está grande, mas não é desesperadora”, relata.

Mas para o agricultor da zona rural a situação é outra. “Tudo estava seco. Panorama de dar pena. Minha pequena propriedade estava praticamente sem água para irrigar uma pequena plantação de coco que eu tenho. É pouca, mas no fim do mês dá uma ajuda danada. Além do consumo”, conta. A região é a segunda maior produtora de coco do Brasil e o produto está comprometido da pouca água do Açude Pentecoste.

Um mês após a instalação do poço em sua propriedade a paisagem mudou e ele colhe os frutos do investimento. “Tudo mudou. As pessoas dizem que eu fiz burrice ao investir R$ 12 mil no poço profundo para escavação, mas não foi. Comprei a máquina por R$ 3 mil e com mais R$ 9 mil consegui furar o poço. Agora tenho terra irrigada e minha família tem água para beber”, conta.

Antes da instalação, ele era obrigado a comprar água mineral a preços altos pois a água disponível na cidade é inadequada para consumo. “Água do açude e dos carros pipa não serve mais, pois está suja. Quando colocamos ela para ferver aparece uma espuma. Horrível.”

O presidente da Associação dos Usuários do Distrito de Irrigação do Perímetro Irrigado Curu Pentecoste (Audipecupe), Francisco Cláudio Ferreira de Sousa, foi um dos idealizadores do bingo. “O que o povo está querendo neste momento? A necessidade é um poço profundo. Então tivemos essa ideia. É uma coisa que vai atingir um maior público possível. E a participação do povo foi grande.” Além do poço, foi colocado a prêmio no mesmo bingo uma moto, mas sem muita procura. “O pessoal sempre perguntava pelo poço. Quase ninguém indagava pela moto. Eles estavam interessados mesmo era em ter algo que lhes proporcionassem água.”

Das 184 cidades do Ceará, 178 decretaram situação de emergência por conta da falta de chuva, incluindo todos os municípios da Região Norte, onde fica a cidade de Pentecoste, é crítica mesmo para quem possui fonte de água própria, segundo Ferreira de Sousa. Algumas plantações não suportam o forte calor e a pouca água.

Com a atual situação, alguns agricultores perderam até 100% da safra, como é o caso de Francisco Sousa Cunha, de 49 anos. O agricultor tinha uma pequena plantação de bananas no quintal de casa e perdeu tudo por causa da longa estiagem.

“Tudo que eu plantei morreu. Não deu para aproveitar nada. Eu até tentei molhar a terra com a água da chuva que guardei, da última chuva que caiu, mas não consegui salvar minhas bananeiras. Um desespero, pois vendia bananas na feira e dava para juntar um dinheirinho”, afirmou, com o olhar fixo para o local onde estavam as bananeiras.

Para a família não morrer de fome, Francisco Sousa Cunha buscou uma alternativa, a pesca em um riacho a quatro quilômetros de sua casa. “Pelo menos três vezes por semana eu saio de casa ainda cedo. Quando tenho sorte, o que sobra vou vender no mercado. Se não fossem esses peixes, estaria em uma situação bem complicada.”

O principal reservatório do município, o Açude Pereira de Miranda – também conhecido como Açude Pentecoste –, está com apenas com 2% da sua capacidade total, e os canais de irrigação estão secos. Para captar o volume morto, que fica abaixo do nível das comportas, é necessário usar um gerador que fornece energia elétrica para as bombas, o que requer um custo alto ao município.

A Audipecupe classifica o atual período de estiagem como a pior seca da região: “Antes a água batia perto do asfalto e parecia que ia invadir a cidade. Hoje faz pena”.

Produção de coqueiros prejudicada
Agricultores do projeto irrigado perderam toda a produção dos coqueiros. As palhas secaram e o coco não serve para a venda. Os moradores mais antigos “não acreditam no que está acontecendo”, diz o agricultor Francisco Rodrigues. “Hoje falta água até para a cidade”, disse.

O Ceará tem oito perímetros de agricultura irrigada. A maioria já interrompeu plantio ou está produzindo abaixo do esperado. A orientação do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Dnocs) é de interromper as culturas temporárias para reduzir os prejuízos.

“Nós estamos fazendo um cadastro temporário que será levado para as autoridades competentes para ver a possibilidade de indenização para que eles possam recompor as suas culturas. O Dnocs também mandou máquina para perfurar poços profundos com objetivo de abastecimento humano”, afirmou o agrônomo Eduardo Segundo.

Para tentar aliviar os efeitos da seca, o município de Pentecoste adquiriu verbas e realizou a perfuração de 65 poços, afirma o secretário de Agricultura e Defesa Civil de Pentecoste, Gledson Guimarães. “Nós conseguimos, graças a parcerias, furar mais de 65 poços no município. Já foram instalados mais de 13 poços para tentar amenizar a sede da população”, relata.

O Dnocs garantiu a verba de R$ 520 mil para que a prefeitura ajude o agricultores a salvar a cultura dos coqueiros. A prefeitura tenta com o Ministério da Integração uma forma dos agricultores receberem Garantia Safra e outros benefícios, afirmou.

G1

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *