Caçador de marajás

A COLUNA DE FRANCISCO SALES CARTAXO ROLIM

Era uma vez um caçador de marajás. Governador de inexpressivo estado nordestino, Fernando Collor vendeu a ideia de que o grande mal do Brasil era pagar altos salários a uma casta de servidores públicos. Iniciou sua luta em Alagoas e lhe deu dimensão nacional. A guerra aos marajás virou mote da campanha presidencial de 1989, a primeira eleição direta depois de quase 30 anos de jejum do voto para presidente. Jejum eleitoral imposto pelos militares. Collor pegou carona no nanico PRN – Partido da Reconstrução Nacional. Soube usar os largos espaços no rádio e na tevê, franqueados pela legislação daquela época. Exibiu-se como paladino da moralidade pública, o homem corajoso, determinado, que acabaria com os marajás, para ele, os responsáveis pela tragédia brasileira.

Quem eram os marajás?

Servidores públicos que recebiam elevados salários, obtidos à sombra do regime militar. Governadores alagoanos, como Divaldo Suruagy e Guilherme Palmeira, ajudaram a engendrar leis criando benefícios em cascata para uma minoria privilegiada enquistada nos três poderes republicanos. Assim teriam nascidos os marajás, segundo Collor. Na sua visão deformada, os marajás eram a raiz dos problemas brasileiros! Contra eles, Collor movia sua guerra. Não era fácil desmanchar a teia de penduricalhos legais que respaldavam os odiosos benefícios. Tanto que antes de assumir o governo de Alagoas, como lembra o jornalista Mário Sérgio Conti, Collor foi ao então procurador-geral da República, Sepúlveda Pertence. Não sem antes anunciar sua audiência em entrevista à rede Globo de televisão.

A mídia era tudo para Collor!

Com gestos estudados, pose de imperador e frases de efeito, sua caça aos marajás foi aplaudida pela população. Ninguém precisava raciocinar. Ora, em todos os lugares existe uma pequena camada de servidores que ganha muito bem, comparada à miséria de salário recebida pelo grosso dos funcionários públicos. A tática deu certo. Collor enganou o povo.

Mas não foi só isso.

A popularidade do presidente José Sarney era, em 1989, quase igual à de Temer. Collor centrou fogo, sem pena, no chefe oligarca maranhense. Grande sacada: escondeu no binômio marajá e Sarney as questões nacionais de fundo. Não se falava de outra coisa. Líder em todas as pesquisas de intenção de voto, Collor enfrentaria no segundo turno Leonel Brizola ou Lula. Ambos metiam medo nas elites brasileiras. Lula foi ao segundo turno. Ficou fácil vencê-lo. O medo do líder barbado encheu os cofres de Collor de doações. O presidente da FIESP, Mário Amato, escandalizou o Brasil com esta previsão:

Se Lula for eleito, 800 mil empresários deixarão o País!

Ninguém conhecia direito quem era Collor, como este ano pouco se sabe de Bolsonaro. Muito menos o que faria na presidência da República. A guerra aos marajás era um engodo. Os reais problemas nacionais, como a inflação, o desenvolvimento econômico e social, o desemprego, tudo isso era tratado, apenas, com frases prontas, tal como hoje se faz com a criminalidade e a violência: bandido bom é bandido morto.

O resto da história é conhecida.

A moralidade pública cedeu lugar ao confisco da poupança de milhões de brasileiros. A enorme sobra de campanha, confiada ao tesoureiro PC Farias, findaram na, até hoje, misteriosa morte dupla de PC e da namorada. O impeachment – cujo relator foi o íntegro senador paraibano Antônio Mariz – pôs fim ao mandato do Collor.

E ficou por isso mesmo.

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