Até a próxima catástrofe

A COLUNA DE SAULO PÉRICLES BROCOS PIRES FERREIRA

Todo nosso país, que fica no tal Terceiro Mundo (pularam o segundo), tendo em vista onde ela fica encravada no interior do Nordeste, no celebérrimo Polígono da Seca (eu mesmo não sei bem como vem a ser essa figura geométrica, mas vá lá), todo nosso país é governado há séculos pela ganância desenfreada e irresponsável, e a nossa cidade, que é encravada numa região mais pobre (inclusive de espírito) que o restante do país, somente consegue se olhar no espelho quando de uma grande situação de catástrofe.

Houve o episódio de Mariana, dezenove mortes, comoção mundial. O nosso Rio Doce foi visto por satélite com cor de tijolo, projeção e má fama (muito má fama) nos envergonhando perante o mundo todo. Apenas três anos se passaram, sem nenhuma lei aprovada (compraram todos os legisladores, como sempre) e outra tragédia acontece, dessa vez com mais de 300 mortes – eu, que prefiro ver a CNN e divulgam lá mais de 400 desaparecidos.

Onde estão os responsáveis pela Boate Kiss? Estão tomando seus preciosos vinhos centenários juntos com os donos da Vale! A população é e sempre foi apenas um detalhe a ser considerado…

Por que nunca se aprende em nosso país? Porque segurança afeta o lucro e o lucro é essencial, é autotélico, é absoluto, a única coisa a ser preservada.

Caro leitor: a tal “barragem a montante” é como que quando o muro de contenção de uma fossa usa como alicerce para a outra parede as próprias fezes depositadas. Em nenhum outro lugar do mundo se tem como regra um absurdo desses.

No Canadá, o governo contratou, num episódio um pouco semelhante, uma auditoria internacional séria que considerou como responsáveis os projetistas da barragem de lá. Aqui, não há culpados. Se tudo for deixado do jeito como vai, vão condenar as vítimas.

Aqui na nossa cidade e região, a coisa não se passa de forma diferente. Eu, como especialista em Segurança do Trabalho, “vejo o museu de grandes novidades” quase todos os dias, com uma diferença: de forma mais pobre e menos sutil.

As normas de Segurança do Trabalho existem há décadas, os procedimentos já foram elaborados há tempos. Recentemente, se passou o tema E-Social, em que as empresas precisam se adequar às regras de segurança, mas, enquanto eu pensava que iam chover serviços desse ramo, tendo, inclusive, distribuído meu cartão com alguns contadores, perguntei a um desses: “que empresa de Segurança do Trabalho está abarcando todo o mercado para que ninguém tenha me chamado para fazer atender os requisitos legais?” O contador me respondeu que ninguém tinha se interessado…

Tal qual em Minas Gerais, ou pior, por aqui existem meia dúzia, se tanto, de empresas paradigmáticas, que deveriam ser imitadas. Posso dar como exemplo duas que eu presto serviço pra elas: o Laticínio Sabor da Terra, que entra em contato comigo quando chega o tempo de renovar os programas, as inspeções e as vistorias, e o Segundo Cartório, que recebeu um prêmio de excelência em nível nacional – assim como o laticínio – e mesmo eles são considerados ter zelo demasiado, como que seguir a regra fosse coisa de “gente besta”. O segundo caso, o cartório, me parece ser o único da Paraíba que atende a esses requisitos considerados básicos.

Outro tipo de empresário que eu vejo em nossa região é o que o técnico avisa que chegou o tempo de renovar os procedimentos anuais e ele fica como que se estivesse fazendo um favor ao técnico, inclusive pedindo descontos, mais do que um profissional ético poderia recusar. Essas duas categorias perfazem, mais ou menos, uns 15% ou 20%, se tanto, de nossa empresas.

A grande maioria dessas trabalha de maneira irregular e vive à margem da moldura legal, ou mesmo na ilegalidade, fazendo pouco dos que não fazem a “economia” de praxe. Na realidade, somente se lembram da segurança quando o fiscal está extraindo a multa, ou, pior, no caso da Vale, quando a tragédia acontece.

Dou como exemplo uma empresa que sempre me evitou e entrou em contato comigo para que eu atestasse que seu equipamento acidentado – vejam o cinismo – estava funcionando normalmente. Isso com vítima fatal, inclusive.

Houve um caso em que eu dei um prazo para o sujeito se adequar às normas e ele entrou em contato com outro para liberar o equipamento sem condições.

Esses são nossos empresários, esse é o nosso país, o país da Lei de Gerson, o país do compra fiscal, o da bola do guarda. Condenado a ficar no Terceiro Mundo, que é o último, senão cairia pro Quarto.

Causa espécie e indignação a todos os que possuam um pouco de vergonha. Dinheiro não restitui vidas humanas! Corrupção mata gente! Acordem antes da tragédia!

Indignado, fico.

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