Quando a esmaecida luz das lamparinas encantava almas penadas, visagens, botijas, as suas histórias de bocas de noite em Impueiras animavam meu universo de criança. Seu porte reto e emagrecido como a encarnar uns e outros Fabiano, Manuelzão, Miguilim, deslizava entre sombras e franjas de flagelados, cassacos, jagunços, cangaceiros.

A sua saga de retirante que, na seca de 1958, se larga com a família em saltitantes e maltratados paus de arara em busca de sonhos e vidas em mundos longínquos do sul enredam e tramam narrativas de terras indômitas com árvores gigantes e rios de mares que não encontravam dimensão e paralelo nos nossos acanhados e secos riachos e na nossa rala e apagada caatinga. Seus casos e aventuras por terras estranhas ganhavam a envergadura de épicos na fértil imaginação infantil. Epopéias acrescidas do Reino Encantado do Serrote do Quati, do caixão com o conhecido morto há tempos e com quem ele se depara em uma curva de caminho em noite soturna.

A sua filiação paterna era apenas cochichada. Filho bastardo de meu avô paterno, Felinto e, após o prematuro falecimento de sua mãe biológica, criado, desde pequeno, pela minha avó paterna, Mariana, a quem chamava de “minha mãe”. Laços e filiações não facilmente aceitas em uma sociedade marcadamente talhada pelo conservadorismo. Assim, cresce como o rejeitado, gozando apenas da amizade e parceria do irmão Raimundo, meu pai. Com este empreende aventuras tantas nos reisados, quermesses e renovações das redondezas. Aventuras patrocinadas pela montaria do meu avô, furtivamente apropriada e escancaradamente revelada pelo suor marcado no pelo do animal.

Casado com Clara Bezerra constitui uma família de muitos filhos. Tendo como ofício apenas o que aprendeu na lida cotidiana de pequeno agricultor, enfrenta a vida entre a abundância dos invernos generosos e a aflitiva arribação para as frentes de emergência nos anos de secas madrastas.

A dureza da vida, no entanto, não foi capaz de lhe roubar a docilidade e o jeito manso. De fala pausada e intercalada por silêncios, risos sutis e escondidos entre lábios entreabertos sempre teve relações de afeto, amizade e solidariedade com todos. Após a morte de meu pai foi uma presença constante e uma companhia necessária e gentil na viuvez de mamãe, dividindo com ela e Xãe, prosas e mudez no aconchego do alpendre de Impueiras, entre tragos de café e saudades.

Além da verve pródiga para as narrativas fantasiosas foi um exímio jogador de sueca. Em torno de uma mesa e tendo o jogo apenas como mais uma forma de sociabilidade varava noites até altas horas, rindo das desventuras alheias e próprias e buscando lenitivos para uma vida sempre antecipada de receios, incertezas e ausência de perspectiva.

Assim viveu Zé Venga. Tão somente um sertanejo, como tantos outros entre trilhas e veredas de sertões de Guimarães, Queiroz, Lins, fazendo grande o que a natureza humana insistia em apequenar.

Parte com o melancólico cantar dos rouxinóis e sabiás que premunem alegrias entre caminhos poeirentos e matos viúvos de verdes.

E encantou-se como suas visagens e reinos em uma dimensão que apenas nossa saudade e lembrança conseguem atingir.

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