A Rosa, Péricles e outras histórias

A COLUNA DE SAULO PÉRICLES BROCOS PIRES FERREIRA

ROSILDA CARTAXO

Estou lendo e me deliciando em ler, pois a leitura de um bom livro deveria ser estimulada – é muito melhor que ficar passando o dedo na tela de um celular, como as novas gerações, e até as mais velhas como eu o fazem – o livro de Edna Marlowa Cartaxo Braga (Edna de Iramirton) e sua tia Rosilda Cartaxo. Estou vendo tantas coisas novas que desconhecia, que nem sei por onde começar. Vou tentar exprimir em uma crônica, mas duvido.

Primeiro é sobre Rosilda Cartaxo, uma, ou talvez a maior relatora de nossa pobre história. Conheci em visita a minha casa, e minha mãe me apresentou como a irmã de Seu Eudes Cartaxo e “tia de John”. Notei seu porte altivo e sua nobreza de caráter imediatamente, A própria era uma das referências de minha mãe e com sobradas razões. Uma das fotos que tenho em nosso arquivo foi o lançamento de seu livro “Estrada das Boiadas” em Cajazeiras, que foi apresentado por minha mãe, mas nada disso é o que tento escrever.

Primeiro, lendo o livro, existe uma crônica que alude à morte de minha genitora, que somente poderia ser escrita por alguém que, além de grande amizade, dispunha de excepcional talento para as letras. Tem o título de “Uma voz que se calou” e começa da seguinte forma: “Minha Cajazeiras, cadê Íracles?”. Dizer que me emocionou é pouco. Nunca escrevi sobre minha mãe com tanto talento.

Mais adiante, venho a saber que Rosilda era sobrinha de minha bisavó D. Sinhazinha Matos, que a ela e ao meu bisavô, Cel. Matos, ela os chama pelos nomes do seio da família, Tazinha e Pai Quinco. Mais à frente no livro, vou sabendo que ela nutriu uma paixão de adolescência por meu tio Péricles, que tem o mesmo nome que eu (meu apelido de Pepé, quando nasci também como que herdei). O restante não vou comentar pois estou lendo esse livro aos poucos, como um vinho de mais de cem anos, você se beber todo de uma vez, estraga o prazer de beber um vinho bom, assim paro por aqui.

Como tenho que oferecer aos meus parcos leitores alguma coisa de novo, e não fica a apenas tecer loas a quem sem dúvida merece, vou escrever sobre esse meu tio homônimo, para que não aconteça com ele o que aconteceu com muita gente de nossa cidade. A memória vai aos poucos se como que evaporando e nossa história fica com está: cheia de lacunas, que por vez ou outra, aparece um livro como o de Edna/Rosilda, para dar algum refresco em nossa memória coletiva.

Bom, meu ancestral da Espanha era Modesto Brocos, pintor e professor da Escola Nacional de Bela Artes que vivia no Rio de Janeiro. Ele e sua esposa Henriqueta eram os pais de Adriano Brocos, filho único, que, depois de formado em Engenharia, veio a trabalhar na Estrada Central da Paraíba e, passando por Cajazeiras, conheceu minha avó Cecília, filha de Cel. Matos e D. Sinhazinha, portanto prima de Rosilda, com quem se casou e tiveram três filhos, o mais velho Péricles, a do meio Áricles, e a caçula Íracles, minha mãe.

Adriano, que conjuntamente com seu sogro, fundaram a Usina Santa Cecília, a primeira indústria de beneficiamento de algodão e fábrica de óleo vegetal da região, e ficaram ricos (o Cel. Matos que já era, ficou mais). Quando Périeles cresceu mais, foi mandado ao Rio para fazer o “Ensino médio” com seus avós na Capital Federal, mas ele, assim como seu sobrinho que escreve essas, aprontou por lá poucas e boas.

Vou contar duas situações em que Péricles se meteu: numa ele estava a passear de barca pela Baia da Guanabara, quando avistou na costa uma espécie de caverna na costa. Disse logo que era um esconderijo de piratas e quando voltou resolveu explorar esse lugar, que depois descobriram que era uma construção do antigo porto.

De outra ocasião, ele, que estudava no Colégio São Bento, resolveu liderar seus colegas numa “caça às onças do Mato Grosso”, e todos se perderam na Floresta da Tijuca, que houveram que fazer buscas para achar os alunos perdidos, que rendeu inclusive manchete nos jornais.

Assim, os pais de Adriano mandaram correspondência para que Péricles voltasse, pois eles que eram idosos, não tinham condições de controlar seu gênio, e “trocaram” pela filha mais velha, minha tia Árieles, que como mulher, era uma companhia mais conveniente para eles. Assim, retomando a Cajazeiras, Péricles e Rosilda se conheceram.

Por Rosilda, ele mesmo fala; meu tio, depois morou em Recife e formou-se em Química, voltou para o Rio depois do falecimento prematuro de seu pai num acidente. Tomou conta de sua empresa, já em São João do Rio do Peixe (Antenor Navarro) e abriu no Rio duas pequenas fábricas – uma de cera de piso e outra de fósforos. Ficava metade do ano lá e metade cá. Em 1952, num sábado de carnaval, ele caiu do primeiro andar de sua casa, teve o crânio fraturado e morreu aos 28 anos.

Uma pena… Fico imaginando se Rosilda fosse minha tia afim. Agradeço tardiamente a ela pela oportunidade de poder escrever sobre meu tio homônimo.

1 Comment

  1. Edna Marlowa Cartaxo Braga
    06/12/2018

    Uso este espaço para demonstrar minha gratidão ao colunista do Jornal “Gazeta do Alto Piranhas”, Saulo Péricles B. Pires Ferreira, em crônica que faz referências ao livro “Uma Rosa me Contou”; como também a Cristiano Moura, pela generosidade em publicar o referida artigo em seu apreciado e famoso Blog “Coisas de Cajazeiras”. São motivos que me proporcionam o enlevo em ter me dedicado ao trabalho elaborado e ter conseguido editá-lo para oferecer aos amigos leitores.

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