A burlesca prévia momesca

A COLUNA DE MARIANA MOREIRA

Aproveitando o clima de carnaval para lançar aqui minha prévia momesca tendo como passarela as ruas de Cajazeiras.

Aos incautos visitantes, mas também aos que aqui residem e por esta terra dedicam afeto, andar pelas ruas da cidade não tem como escapar ao clima de quarta-feira de cinzas, onde redemoinhos de descaso sopram restos de fantasias largadas por afoitos foliões que, exauridos de vãs promessas, seguem reticentes entre alegorias e fantasmas.

Cansados da exaustiva e infrutífera aventura, os foliões cambaleiam por ruas e avenidas parcialmente recapeadas onde, no varejo, pedaços de asfalto são largados como a querer escamotear a negligência e justificar a eficiência.

Buscam uma praça, um banco, um aconchego para aliviar a canseira da folia, mas enxergam apenas quimeras que tremulam nos desejos daqueles que sonham com uma cidade mais humana. Até mesmo o açude grande onde um mergulho poderia aliviar o corpo da exigência carnavalesca está desaparecendo ante a ganância da especulação imobiliária e a ausência do poder público que, inerte e, em momentos frequentes, parceiro, vê sucumbir suas margens assoreadas e aterradas.

Tropeçam em calçadas desiguais e são arremessados em vazios preenchidos por barracas, tendas, bancas, prateleiras, oficinas que se multiplicam pelas ruas da cidade a uma velocidade estonteante, ocupando calçadas, vias públicas, esquinas.

Mais a frente mototaxistas improvisam pontos em áreas não autorizadas, enquanto um diligente guarda de trânsito, impávido em sua missão de  multar os transgressores e ordenar o caos, assiste, incólume, pedestres se esgueirando entre veículos e buzinas para transitar por ruas cujas calçadas se convertem em extensões de comércio. Ora, a crise justifica a bagunça e tudo segue no ritmo do samba do criolo doido, sem harmonia, sem métrica ou rima capaz de sugerir o mínimo de sensatez.

Os foliões passam trôpegos por cordões, paredões de som, blocos desgarrados. Esporadicamente, sons lembram antigos carnavais, entre frevos, marchinhas, sambas. Serpentinas enroscam imaginários desenhos. Mascaras escondem recônditos desejos. Vozes gritam reclamos de dignidade urbana.

E os foliões, esfoliados pela caótica vida urbana, seguem os passos de uma escola de samba sem enredo, sem bateria ou sem mestre sala e porta bandeira. Apenas alguns figurantes contratados para improvisar o que antes era identidade de todos.

E enquanto adormecem os foliões ainda murmuram os versos de Turbilhão, do Moacir Franco, como a teimar entre a realidade e o sonho:

A nossa vida é um carnaval
A gente brinca escondendo a dor
E a fantasia do meu ideal
É você, meu amor
Sopraram cinzas no meu coração
Tocou silêncio em todos clarins
Caiu a máscara da ilusão
Dos Pierrot’s e Arlequins

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